sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Luz, Gelo e Óleo de Cozinha num Quarto de Nabokov

Gelo e óleo de cozinha. Eram imprescindíveis, á despeito de todo o equipamento tecnológico, de todas as luzes e flashs e photoshop, o gelo e o óleo de cozinha não podiam ficar de fora.

Quando eu era criança, todos os garotos do condomínio se reuniam na garagem pra ver revistas de sacanagem. Olhávamos, repetíamos palavrões que ouvíamos de nossos pais, e no final concordávamos que a profissão ideal era fotógrafo de mulher pelada. E agora lá estava eu, com uma câmera, um quarto de hotel, uma menina sobre a cama, gelo e óleo de cozinha, e me perguntava, onde estava aquele glamour, todo aquele tesão de pré-adolescente?

Não é que a menina não fosse atraente. Era lindíssima.O corpo escultural, devidamente esculpido á golpes de bisturi sobre uma mesa de inox, pago em trinta e duas vezes no cartão de crédito; os olhos azuis de vidro, umedecidos com soro fisiológico; os lábios injetados; a cabeleira oxigenadamente loira; os cílios postiços... um corpo de mentira, como os orgasmos de mentira, as carícias de mentira, as caras e bocas de mentira de que vivia a menina. Mentiras de aluguel para homens que mentiam para as esposas em casa, que mentiam pra si mesmos, com suas mentirosas felicidades feitas de carros luxuosos, ternos italianos, clubes de pôker, famílias de plástico e meninas como aquela. O sucesso nojento de um mundo canibal. Eu era pago pra produzir belas mentiras, com luz, gelo e óleo de cozinha.

Antes eu fotografava peças de catálogos de autopeças, canetas e outras babaquices quaisquer. De vez em quando pintavam alguns casamentos e aniversários. Foi em um casamento que eu conheci o Álvaro, um gay gordo com anel dourado no mindinho. Conversamos sobre o ridículo ritual pré-nupcial católico, ele pediu meu cartão e disse que tinha um serviço pra mim. Ele estava abrindo uma agência de acompanhantes para executivos, e queria que eu fotografasse as meninas. Dinheiro grande pra um falido como eu.

O processo era complexo. Álvaro me ligava quando uma menina nova entrava pra o casting, me passava os dados dela e marcava um encontro em um café. Passávamos a tarde e a noite conversando e bebendo, pra que ela se sentisse á vontade comigo, como se fosse um amigo ao invés um açougueiro expondo um pedaço de vitela num gancho. Eram todas universitárias poliglotas que precisavam bancar os estudos, as roupas de grife, as baladas e a cocaína, pra não ficarem deslocadas entre a filhas de desembargadores e juízes da faculdade. Falávamos sobre arte, sobre futilidades e sobre a vida delas. Geralmente a noite acabava com a menina chorando, bêbada, confessando as dificuldades da vida de prostituta e o orgulho dos pais, na cidadezinha de interior, por ter uma filha que estudava e trabalhava tanto. Ou, ás vezes, com a imbecil exaltando uma filosofia epicurísta transfigurada em frases de auto-ajuda feminista pra disfarçar com indiferença o njo que sentia de si mesma e a vergonha de não conseguir ser mais do que uma boceta bem paga. Tornei-me mais psicólogo do que fotógrafo.

A sessão acontecia em duas fases. Na primeira eu fotografava books inocentes. Álvaro montou uma agência de modelos de fachada, que servia como álibi para os pais das meninas não desconfiarem de nada. Assim, periodicamente elas podiam enviar pra casa fotos de supostas campanhas para revistas e lojas, e justificavam o dinheiro que certamente não ganhariam como garçonetes de alguma espelunca. Na segunda fase, fazíamos as fotos do site.

Álvaro alugava sempre duas suítes em lados opostos do hotel, de modo que as janelas apontassem sempre na direção do sol. Eu dispensava maquiadores, preferia que elas trouxessem uma amiga que lhes ajudasse, pra ficarem mais á vontade. Nunca ficávamos sozinhos na sessão. Elas ficavam nervosas. É engraçado como entravam facilmente nas personagens com os clientes, mas eram apenas meninas comigo.

Eu dispensava também os grandes equipamentos de iluminação. Tripés e spots de luz fazem o ambiente parecer uma sala de cirurgia. Funcionam pra revistas pornográficas e books de moda, mas executivos queriam meninas, como as amigas de suas filhas pelas quais se masturbavam depois de deixar as crianças no colégio. O equipamento consistia basicamente em uma câmera, um aparelho de som, tecidos e uma ou duas garrafas da bebida favorita delas.

Começávamos com algumas fotos sem importância, só pra descontrair. As primeiras cinqüenta fotos eram lixo. Então eu seguia servindo os copos. Usava copos escuros, de modo que podia encher o da menina de bebida e o meu com metade de água. Ela bebia, dançava, ria muito, fumava. Então eu lhes passava o óleo de cozinha no corpo, pra dar textura. Elas ficavam soltas, mas a pele precisava ficar arrepiada, os bicos dos seios precisavam ficar eriçados, e aí entrava o gelo nos mamilos. Então, depois de muita bebida, um pouo de óleo de cozinha e gelo, voilá! Meu trabalho estava terminado. Então eu chamava um taxi pra elas e voltava á pé.

Depois de cada ensaio eu ia sempre pra o mesmo bar, enchia a cara e passava a noite pensando no que seria daquelas meninas. Elas ganhariam o dinheiro dos porcos que forjavam congressos em São Paulo pra se divertir, gastariam tudo da maneira mais supérflua possível, e se achariam vagabundas toda vez que a ressaca batesse de manhã. Então, em quatro ou cinco anos estariam formadas. Médicas, advogadas, publicitárias, dentistas. Casariam com os filhos dos ricaços asquerosos que tinham se esfregado nos seus corpos jovens, teriam filhas e passariam madrugadas preocupadas enquanto essas filhas estariam em festas. Dariam conselhos. Freqüentariam a igreja e as reuniões da Associação dos Amigos do Bairro, e sofreriam de ciúmes quando seus maridos viajassem para os congressos fora da cidade, pra se divertir com as filhas universitárias de suas antigas colegas. Que pesadelos teriam essas meninas nos próximos vinte anos? Como seria viver com o medo do passado vir a tona, em um site perdido na web, em um catálogo perdido em uma gaveta de um velho executivo? Viveriam elas com esse medo, pensariam nisso ou eu superestimava o senso de humanidade e a inocência daquelas meninas? Meu lado altruísta esperava que sim. Meu lado egoísta esperava que não. Sempre preferi ser egoísta. Um brinde à Stirner, Nietzsche e demais ofídicos de pena e tinta!

Durante os cinco meses em qeu fotografei para o Álvaro, posaram cinquenta e oito garotas. Nunca me deitei com nenhuma delas. Elas eram só meninas. Eu era a prostituta ali.

Durmam bem, meninas. Tenham bons sonhos.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Noctâmbulos





Pesam as pálpebras, cortinas cobrem retinas. Observo a Lua, leve no céu. Leva-me leve a Lua aos céus baixos em mim, fobias, fantasias, fantasmas dançando nus o tango do delírio.


Na janela jaz a rua em paz, sem pés que passem apressados, carros rodando sem rostos atrás dos vidros escuros, obscuros robôs correndo aos matadouros pelo pão nosso de cada dia que o diabo amassa, cospe e fode. São massa, insana massa. Só, a avenida semeia lâmpadas de mercúrio, brotam vermelhos céus – de fora e de dentro. Deep red redemption when the city sleeps.

Pesam os relógios, quartzo marca-passo musicado, desesperada sinfonia monossilábica escorre a pele, os cabelos, a força, os cânceres, as saudades.

TIC, TIC, TIC, TIC, TIC, TIC. TUM, TUM, TUM, TUM, TUM, TUM

Cardíacos acordes acordam pensamentos mortos. Anjos tortos, demônios narcolépticos, noturnos, alma fotofóbica com óculos de insônia. O resto é casca, zumbi de barba feita e sapatos polidos. Sob o sol, paletó, cartão de ponto, jornal, café, cigarros, bom dia, boa tarde, bom garoto, pega um biscoito, um graveto, um holerite, uma esposa, uma televisão.

A insônia ri no espelho. Do espelho. O rosto atrás do rosto, da máscara, ri o sorriso nicotinado do sorriso colgate. Olheiras fundas sorriem sinceros para a Lua leve que me leva, enfim, pra longe de mim. Sorrir antes que o dia nasça e tombe novamente na tumba.

TUM, TUM, TUM, TUM, TUM, TUM...

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Escravoverso

Nota: ganha um prêmio quem descobrir todas as referências




Canta a cabeça decepada de Orfeu: “To be or not to be les flours du mal?”, reinar na Dinamarca ou apodrecer em Lesbos, a morte pela lira ou pela loucura é igualmente morrer pelo sexo ácido de Poesia.


Em esplêndido spleen rompe Rimbaud o coração que versa, pois coração não sangra verso, apenas sangra e do sangue faz-se tinta que tinge a alma de verso. É preciso morrer primeiro, de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia, para versar somente depois.

A Mensageira das Violetas violenta a solidão, esta pantera, Bela-flor Espanca a quimera que devora seus Anjos caídos. Brilha Byron na penumbra, pulsa Poe no corvo, o corpo espera o copo que embriaga a mente do velho Chinaski. O poeta mente. O poeta é um fingidor, diz o português Pessoa, multi-pessoa pastor-árcade-tabacaria-desassossego. É preciso partir-se primeiro para versar somente depois.
Goya goza Cronos devorando filhos, homens destruindo irmãos, burros cavalgando... burros, ora, que seriam além de burros? O colete de Frida Khalo não cala a tinta que delira. Dança Frida, com as pernas atrofiadas de Tolouse, com as putas atrofiadas de Tolouse, dança num Sonho de uma Noite de Verão, queima a cruz abssínia, bebe a não-arte no urinol de Duchamp. Quando queimarem os parnasos, os hereges louvarão: “Also Sprach Zarathustra!” É preciso enlouquecer, matar deus primeiro, para versar somente depois.

A Poesia, vagabunda iluminada de pé na estrada, planta flores no asfalto. o Uivo é a Canção da Inocência que beatifica bodsathivas no Casamento do Céu com o Inferno. Move as cordas do títere-poeta. É preciso versar, é preciso morrer, é preciso partir-se, é preciso obedecer. A Poesia, caros irmãos, é uma Imperatriz caprichosa. Poeta-escravo, é preciso viver primeiro. É preciso atravessar espelhos para ser poema, reflexo distorcido, migalha, fragmento da Poesia.
A Poesia existe antes de você. A Poesia existe antes do poema. A Poesia existe, o artista não. A Poesia É!
Simplesmente é...

É preciso versar.
É preciso sangrar.
É preciso servir.

Versar é preciso
Escravoverso ser...

sexta-feira, 18 de julho de 2008

O Francês

Todas as manhãs, sentado ao balcão da padaria em frente ao trabalho, pedia meu café, acendia um cigarro e via a figura magra atravessando a rua. A elegância era inegável, apesar da avançada idade. O Francês usava sempre paletó de tweed cinza, mesmo no verão. Ele parava em frente á padaria pontualmente ás sete da manhã, sorria e acenava para um dos garotos do balcão, que corria até a porta com um pedaço de pão velho, apressado em enxotá-lo antes que seu fedor espantasse a clientela. Ninguém gosta de mendigos.

Certa vez encontrei o Francês sentado em uma escadaria, de madrugada, e sentei-me no mesmo degrau. Fazia muito frio, e eu tinha comigo uma garrafa de conhaque. O Francês desconfiou, mas aceitou um gole. A garrafa estava no final, e ofereci um vinho no bar da frente. O Francês preferia cachaça. Bêbados sempre tem boa histórias.

O Francês chamava-se Armand Debussy, e tinha sido professor de literatura na universidade de Montmartre. Um dia, em férias em Amsterdã, foi com alguns colegas ao bairro vermelho, e lá conheceu Sandra. Foi amor á primeira trepada.

Sandra era uma mineirinha jeitosa, morena mingnon de boa família. Ela tinha tudo que uma menina podia querer - dinheiro, carro, estudo, uma família amorosa e gentil, uma casinha com cerca branca e um cão chamado Bob. Porém, a puberdade fez-lhe refém das pulsações abaixo da linha do equador. Era ninfomaníaca. Atrás da igrejinha, nos matagais da fazenda, na cachoeira ou na casa do professor de piano, baixava-lhe a Súcubus de olhos verdes, e em pouco tempo a cidade toda já conhecia sua fama e suas curvas. Papai era homem compreensivo, mas era também beato fervoroso, além de candidato á vereador. Não ficava bem que sua prole fosse afamada como bem público desde o quartel até o curral. Sandra foi enviada à um colégio suiço, que jamais teve a sorte de ver seu rebolado latino. A Súcubo estava livre.

Armand ficou encantado com a beleza Iracema de Sandra e pediu-lhe em casamento. A moça, claro, não trocaria a vida luxuriosa pra viver ao lado de um professorzinho careca, trinta anos mais velho, cheirando á naftalina e livros. Livros, imagine, que horror!

Armand, tomado pela imbecilidade esperançosa dos apaixonados, pediu demissão da universidade e se mudou pra Amsterdã, onde abriu uma livraria. Ia todas as noites visitar Sandra na zona. Ela recebia sorridente seus presentes, mas só consentia em atendê-lo uma vez por semana. Não queria abrir mão dos outros clientes, mesmo que o professor pagasse valor bastante acima da taxa de serviço cinco-estrelas (que incluia um ritual complexo envolvendo algemas, creme de leite e um maço de penas de pavão-real) apenas pra ficar observando ela penteando os cabelos, experimentando jóias, pintando as unhas. Ao final, Sandra abria a porta e ele ia embora, sem uma palavra sequer.

Foram cinco anos nessa rotina, até que os vinte e oito invernos começaram a abalar os lucros de Sandra. Não que ela tivesse em algum momento perdido a firmeza das carnes, não era isso. Estava cada dia mais bonita, com a segurança e sensualidade que só os anos fornecem á uma mulher. Mas, fato era, empresarios cansados das esposas preferem lolitas magricelas sentadas nos seus colos gordos, como bonecos de ventríloco que rebolam e engolem até última gota.
Finanças em risco, Armand parecia um investimento de baixo risco, capital de giro razoável e lucros á curto prazo. Casaram-se em um cartório, ele de terno, ela de porre.

Armand quis levá-la para Paris, mas Sandra não pretendia sair de Amsterdã. A sacanagem deixara de ser profissão, agora era praticamente um trabalho filantrópico. Sandra sumia por noites seguidas, reaparecendo na porta de casa dentro do carro de homens jovens e bonitos. A mulher chegava cheirando à whisky, maconha e suor, e Armand lhe preparava um banho de banheira e lhe massageava os pés. Ele era mais feliz do que nunca.

Passados dois anos, Sandra engravidou. Armand entrou em êxtase. Sabia que o filho não poderia ser seu, mas poderia criá-lo, dar-lhe seu sobrenome. Imaginava que o instinto materno fecharia um pouco as pernas de sua esposa. Saiu e comprou um berço, um ursinho e um enorme bouquet de flores.
Dois dias depois, Sandra decidiu fazer um aborto.

Viajaram para São Paulo. Sandra queria ser operada no Brasil, na clínica de um amigo, apesar da facilidade do serviço em Amsterdã. Armand, na patética letargia dos românticos, consentiu.

Na manhã da cirurgia, Sandra pediu à Armand que esperasse no hotel. Justo, afinal ele não estava presente no momento da concepção, não tinha porque estar no momento da execução.

O Francês esperou a tarde toda, e a noite toda também, e esperou por um mês trancado no quarto do hotel. Sandra lhe dera o telefone da clínica. Armand ligou. Era o número do zoológico municipal.

Durante um mês de espera Armand dormiu sentado em uma cadeira de frente pra a porta. Quando a esperança secou, deixou as malas no quarto e saiu apenas com o terno Pierre Cardim que usa agora. Voltava todas as noites ao hotel e perguntava pela esposa, mas não permitem mais que passe pela porta. O segurança do hotel deixa ele dormir escondido na garagem.
Armand espera há mais de um ano.

Levantei-me pra pagar a conta. Quando voltei ele já tinha ido embora. Deixou um guardanapo rabiscado em cima da mesa. Lia-se:

Le regard singulier d’une femme galante
Qui se glisse vers nous comme le rayon blanc
Que la luneonduleuse envoie au lac tremblant,
Quand elle y veut baigner sa beuté nonchalante


É a primeira estrofe de O Vinho do Solitário, de Baudelaire.

O Francês nunca mais passou pela padaria de manhã.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Hipocrisias & Repercussões


Era uma daquelas noites chatas de verniságe. Nos últimos tempos, não suportava mais essas veadagens, não aguentava papo de pintores, poetas e estudantes moderninhos de dread no cabelo e sandália de lona. Cheiro de vinho branco me enjoava. A vida de produtor tinha dessas coisas.

Era uma dessas noites em que vestia um paletó sem gravata, jeans e camisa pra fora, circulava um pouco, cumprimentava meia dúzia de pessoas, conferia o equipamento de som, o buffet e me trancava na sala de equipamentos. Ouvia Tom Waits, pegava a garrafa de conhaque no armário, tirava os sapatos e amaldiçoava o glamour da hipocrisia cultural de São Paulo. Principalmente, amaldiçoava o amor incondicional, doentio, que eu tinha por essa nojenta hipocrisia pseudo-intelectual. Amava o horrível bafo de vinho branco, os canapés sem gosto e os saraus chatos com poetas mofados e roucos. Ah, como eu amava tudo isso.

Era uma dessas noites em que praguejava amaldiçoando minha boa sorte, quando o Judeu entrou na sala esbaforido, com aquele tipo de sorriso imbecil que só o sexo e o dinheiro põe no rosto de um homem. Deduzi que fosse o sexo – essas noites atraem um número incrível de estudantes moderninhas de jornalismo da PUC.
Me enganei.

- Cara, adivinha quem tá bêbado assinando um cheque no saguão???

Adivinhei.

Era o Dr. Osmar, com a verba pela qual vínhamos rastejando há meses. Nós dois e mais cinco amigos planejávamos desde o outono do ano anterior um evento em Paranapiacaba. Seria uma semana de mostras artísticas que envolveriam literatura, teatro, música e um recompensador comércio paralelo pouco ortodoxo. Éramos apaixonados pelo ar confortavelmente melancólico daquele vilarejo, suas ruas de paralelepipedos, sua névoa com perfume de beco parisiense, seu mistério londrino e, sobretudo, sua ausência de policiamento. Já tinhamos os planos, já tinhamos os contatos, só faltava a grana. Agora, só faltava comemorar.

Demos alguns telefonemas, avisamos o resto do grupo. Marcamos para a noite seguinte.

Na época eu saia com uma psicóloga ruiva, gótica, coberta de tatuagens e completamente psicótica. Sempre as ruivas psicóticas.

A Ruiva Psicótica começava a invadir o nosso apartamento. Era uma escova na pia, uma calcinha deixada no varal, uma mecha de cabelos no sabonete. Em breve seria uma foto em cima da escrivaninha. Decidi que era melhor não passar um momento tão importante ao lado dela, então disse que ia visitar minha mãe.

Na noite seguinte o apartamento foi completamente invadido. De repente, me sentia dentro de um conto beatnik. O Judeu colocou um cd do Gotan Project, uma babel de garrafas se fez em cima da mesa, e alguém descobriu meu narguilé atrás da cama. A fumaça dos cigarros, cigarrilhas, charutos e demais canais cangerígenos era demais para as poucas janelas, semi-fechadas pela noite fria de julho, e em pouco tempo não se podia enxergar a outra extremidade da sala. O som estava alto demais, e senti que as coisas sairiam do controle quando vi o que estavam fumando no narguilé. Foi quando um hippie sujo derrubou da estante a bailarina de porcelana que eu havia ganhado no Dia dos Namorados do ano anterior. Odeio o Dia dos Namorados, mas fiquei puto mesmo assim. Peguei uma garrafa de vinho e levei meu mau-humor pra passear na escada do corredor.

No topo das escadas havia um casal, não sabia dizer quem estava em cima de quem, mas ignorei-os e me sentei no terceiro degrau. Foi quando notei uma loirinha abraçando os joelhos no canto da parede. Não imaginava bem o que ela havia tomado pra estar vidrada daquele jeito, mas devia ter sido algo forte. Ela cantarolava algo que lembrava “Little Girl Blue”, com um sotaque gaúcho. Foi o suficiente. Ela levantou os olhos, eu balancei a garrafa. Ela sentou no segundo degrau, e eu torci para que ela não tivesse herpes.

Enquanto isso, dentro do apartamento, o Judeu atendia o telefone. Sem conseguir ouvir quem estaria do outro lado da linha, ele simplesmente gritava: “Festa! Vem pra cá! Traz álcool!” e desligava. Foi a prova da existência de Deus, assim como a confirmação de que Ele é um sádico maníaco. Do outro lado da linha, é claro, estava a Ruiva Psicótica.

Eu estava em uma empreeitada hercúlea pra abrir o soutien da Loirinha Vidrada com a mão esquerda sem largar o cigarro, quando ouvi o barulho do elevador. Com a luz da porta, veio a sombra da Ruiva Psicótica, carregando duas garrafas de vinho e um bolo de chocolate. Eu não tive tempo de me espantar ou dizer nada, porque tive que me abaixar quando a primeira garrafa se espatifou no sexto degrau, logo atrás da minha cabeça. Tentei me levantar, fazer cara de mau – afinal, eu era o dono da casa, não podia ser vexado por uma maluca qualquer -, mas a imponência da cena foi quebrada pelo meu suéter de lã preso no fecho do soutien da Loirinha Vidrada. Talvez eu ainda pudesse manter alguma decência, apesar da bebedeira e das linhas de lã italiana que mantinahm semi-erguida a blusa da menina, mas quando o bolo me atingiu eu tive a certeza de que tinha perdido o respeito.

A cena toda transcorreu em menos de dois minutos, mas foi o suficiente pra que vinte pessoas invadissem o corredor pra ver um cara coberto de chocolate e glacê, com a manga do suéter preso aos peitos de uma menina ajoelhada soluçando coberta de vinho e uma mulher de cinta-liga, corpete e mini-saia gritando nomes que fariam corar de vergonha um marinheiro irlandês.

Rápido como se formou, a multidão se desfez. Cinco minutos depois estavam entretidos com uma menina que dançava em cima do sofá e tirava uma peça de roupa a cada tequila que tomava. Nós tinhamos muita tequila.

A Ruiva Psicótica, no auge de sua dignidade, aos berros se trancou no banheiro e só abriu a porta quarenta minutos depois, pra a Loirinha Vidrada se lavar. Saíram juntas da festa, e fiquei sabendo por fonte segura que tiveram um relacionamento feliz e estável por quase seis meses depois disso. Dizem as más linguas que a coisa toda terminou quando a Ruiva Psicótica se converteu á Igreja Estelionatária Universal do Reino de Deus e trocou a cocaína pelo dízimo.

Pela manhã a situação era calamitosa. Meu suéter favorito estava arruinado, a bailarina de porcelana parecia o retrato de Tiradentes esquartejado, o apartamento fedia á marijuana e suor, alguns CD’s haviam desaparecido, haviam novas marcas de cigarros no estofado, o tapete grudava nos pés e a multa de condomíno arrombaria meu orçamento do mês, mas estava feliz. Tinha me livrado da Ruiva Psicótica sem ter que conversar sobre meus sentimentos ou passar por aquela cena ridícula de “ainda podemos ser amigos”. Não , nada de perguntas, nada de telefonemas, nada de expicações, lágrimas ou objetos e verdades pontiagudas voando á esmo. Apenas a praticidade e objetividade do ódio declarado.

É curioso como sentir-se um cretino faz bem á um homem. Nos orgulhamos de nossa falta absoluta de caráter, nos vangloriamos pra nós mesmos com o mesmo cinismo que dizemos “eu te amo” quando a mulher se faz de difícil. No entanto, se somos nós os pénabundeados, logo o “eu te amo” é a verdade mais absoluta do mundo, não entendemos o porque do chute e, se entendemos, nos arrependemos e juramos que nunca mais vamos esquecer a cachorra. Ah, hipocrisia, és a chave da coexistência social.

Preparei uma xícara de capuccino, acendi um cigarro e me senti feliz pela minha saída estrategicamente covarde. Estava até pensando em me barbear e ir á igreja dar uma moedinha pro cara da cruz, quando notei os cacos de vidro vermelho atrás do sofá. Não! Era a segunda e definitiva prova de que Deus realmente existe e é um maldito sádico desaforado. Malditos filhos da puta, quebraram meu narguilé!

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Pau no Coelho !!!

Nota: Inaugurando a nova sessão de Mau-Humor e Implicância Gratuitos

Já devia ter passado da meia noite, visto a ausência de pessoas na estação Paraíso do metrô, normalmente abarrotada de pernas e rostos apressados em outros horários. Talvez motivado pelos dois Rabos-de-galo que havia tomado minutos antes, talvez pela ausência de seguranças na plataforma, resolvi saborear a pequena transgressão de acender um cigarro olhando pra os trilhos. Esse é o tipo de coisa que sempre me motiva, pequenos gestos inúteis e infantis que mascaramos como manifestação de contestação ao sistema, como aquela vontade de correr pelado na Avenida Paulista, ou fazer xixi de cima dos viadutos, ou ainda aquela compulsão incontrolável de enfiar o dedo no bolo de aniversário do seu chefe, sabe? Pequenos detalhes que fazem a vida valer a pena e dão vontade de rir sozinho, sabendo-se um idiota feliz e realizado.

Apreciava meu pequeno delito, quando um cartaz me arrancou violentamente o torpor imbecil. Uma propaganda enorme anunciava o lançamento da biografia de ninguém menos que Paulo Coelho, pelas competentes mãos de Fernando Morais. Sim, o maior biógrafo do país, o autor de “O Anjo Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues”, devia estar apertado de grana e resolveu tirar a barriga da miséria com o Harry Potter grisalho.


Até aí tudo bem, afinal, Paulo Coelho já virou ate nome de rua em Santiago de Compostela, como agradecimento pelo aumento significativo de turistas que a cidade passou a receber depois do lançamento de “O Diário de um Mago”. Se Morais quis escrever seiscentas e trinta e duas páginas sobre o ex-hippie que plagiou uma crônica do Cony pra conseguir o primeiro emprego em um jornal, problema dele. O que me chamou a atenção não foi o livro, ainda mais em um país em que o 29º livro mais lido pelo povo, atrás somente da Bíblia, de uma porrada de livros evangélicos e de duas obras obrigatórias pra USP, é a biografia do estelionatário Universal Edir Macedo. O que me devolveu a sobriedade como um balde d’água com Epocler foi o poder criativo dos publicitários da Editora Planeta, incapazes de pensar no sentido de palavras simples.

O enorme quadrado lilás definia, logo abaixo de “A Biografia que o Brasil Esperava”, a obra sobre a vida do Pernalonga Místico com três simple
s adjetivos,: “Inacreditável, Fantástico e Extraordinário”. Foi nessa hora que me ocorreu que, se eu fosse Paulo Coelho, largaria o cajado, colocaria as duas mãos no chapéu pontudo e exclamaria: “Fodeu!”

Biografia, segundo o Aurélio em cima da minha mesa, é a descrição da vida de uma pessoa. Descrição REAL, diga-se de passagem.

Pois bem, “Incrível”, também segundo o Aurélião, é algo inacreditável, difícil de ser verdade. Ficção pode ser incrível, biografias não, elas têm que ser, justamente, verdadeiras, confiáveis, CRÍVEIS, catso! Sendo assim, a propaganda me diz “Bixo, eu não ponho fé em uma linha dessa josta”.

Tá, daí você diz “Pô, Zúnica, deixa de ser chato, isso é coisa que passa”. Tá bom, errar é humano, mas persistir é burrice.

Diz novamente o Aurélio: “Fantástico – que só existe na fantasia; imaginário; incrível; que só existe na imaginação”. E lá vamos nós de novo! Ta certo, o mezzo místico mezzo charlatão só funciona com muita imaginação – pra não falar de boa vontade -, mas a vida dele não! Outro termo contraproducente em uma biografia. Além de que usar na mesma sentença as palavras Incrível e Fantástico estende a cagada á redundância, já que elas tem o mesmo significado.

Aí, de novo: “Porra, Plínio, deixa os caras em paz, isso é normal”. Tá bom, errar é humano, persistir é burrice, mas a persistência na burrice é imperdoável, corinthiana e petista, motivo que levou meu pai a fazer uma vasectomia depois do segundo filho. Mas a agência de publicidade do Coelhão é brasileira e não desiste nunca!

Novamente ta lá no pai-dos-burros: “Extraordinário: fora do ordinário; que não é conforme à ordem; estranho; raro”. Aí você até consegue extrair algo de positivo, mas só se comparado á outras vidas. Mas a biografia não é estudo comparativo, é apresentação de caso individual. Francamente, a vida é necessariamente ordinária, independente do sucesso dos Best-sellers de auto ajuda. É ordinal, visto que ele nasceu, cresceu, se multiplicou, ficou calvo e vai morrer (logo, espero). E não é nada extraordinária dentro do âmbito de qualquer escritor de obras de alguma utilidade que não seja calçar a mesa de centro da sala, ou de qualquer escritor (rárá, escritor...!), artista (rárárá!) ou intelectual (RÁRÁRÁ) engajado (MUITO RÁRÁRÁ!) que tenha vivido um período de ditadura. Mas aí beleza, dá pra tirar algo de proveitoso do adjetivo infeliz. Pelo menos coisa mais proveitosa do que dos infelizes livros do discípulo de Aleister Crowley.

Aos leitores de Paulo Coelho, nada pessoal, vocês podem chorar assistindo Malhação, rir horrores com o Zorra Total ou fumar orégano achando que é maconha, que cada um cuida da sua vida. Já me deparei com amigas que leram todos os livros do Mago-de-(boc)Óz tupiniquim (todos? Ué, sempre achei que era o mesmo livro com títulos diferentes...) e a-do-ra-ram. São, geralmente, os mesmos fãs ardorosos que defendem a veracidade e profundidade de “O Segredo”, “O Código Da Vinci” e a coluna da Ana Maria Braga no Diário de São Paulo.

Borges disse certa vez que “O Best-seller está pra a literatura como as putas estão pra o amor”. Viva Borges!!!

O que me espanta é a perspicácia editorial, o descuido com a criação e, sobretudo, o descaso dos publicitários com as aulas de produção textual e semiótica que certamente lhes custaram alguns finais de semana de cervejada perdidos pra passar nas provas e fazer trabalhos. Ou pelo menos alguns caraminguás gastos pra comprar trabalhos e notas!
Após incontáveis noites de Brainstorms regadas à sushi e Pepsi Diet, acho que a criatividade e o bom senso foram espairecer em alguma rave ou verniságe aviadada


Francamente, Paulo, na sua próxima mágica tente tirar da cartola algo mais que um romancezinho de clichês e personagens manjados com erros absurdos de pesquisa e misticismo barato. Procure no fundo do chapéu uma equipe de criação decente.






Agora vão lá nos comentários e expressem todo o seu repúdio com palavras educadas!

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Quanto tempo levará a fumaça para encobrir os sentidos?

Naquela manhã decidi não trabalhar. Tomei um banho demorado, sem me preocupar com a conta de luz no fim do mês. Ignorei a toalha na porta do box, sai molhado, espalhando água no piso de madeira do apartamento. Sentei-me nu na cama, olhando-me no espelho. Os anos passaram. Há quanto tempo não me via nu? Já não conhecia meu corpo, eram-me estranhas as cicatrizes no braço direito, os músculos parcos, os pelos que despontavam grisalhos no peito, o dragão nas costas. Engordei. As pernas haviam perdido a força dos velhos tempos, eram agora escravas do carro. Nunca comprei a moto que sonhei na juventude. O espelho era o símbolo dos sonhos que não se cumpriram.

Nu, requentei o café do dia anterior e peguei o jornal na porta. Na capa havia minha última matéria, o horrível caso da mulher que enforcou o filho e se matou em seguida, após o último capítulo da novela das oito, em que morreu o galã por quem ela era apaixonada. A matéria é destaque, logo abaixo do resultado da copa sul-americana de futebol. Foi uma matéria trabalhosa, precisei cobrar um favor do delegado Alceu para descobrir o endereço do marido da moça. Viajei até sua cidadezinha porca, onde ele era caseiro de um sítio. Precisei pagar muita cachaça pra conseguir fazer o infeliz chorar e dizer que amava a mulher, que ela era uma boa pessoa, e que sentia saudades do filho, que não via há quatro anos porque era um bêbado que espancava a família, assim como espancava a nova mulher. Redigi a maldita entrevista em meia hora, acrescentando todo o dramalhão que paga o meu salário e faz os cães canibais se embebedarem de sangue todos os dias na fila da lotação.

Deixei sobre a mesa o café intocado e o jornal. Náusea. Talvez precisasse de outro banho. Ao invés disso, servi-me de uma dose de conhaque – meu deus, são nove da manhã! – e sentei-me, nu e molhado, em uma cadeira de vime na sala.

Guardo, embaixo da cama, caixas de recordações. Costumo pegá-las todos os anos no natal, mas nunca as abro, só ouço os anos reumáticos se movendo dentro delas. Guardo lá cartas de amor que recebi e que escrevi, mas nunca enviei. Guardo velhas fotografias, ingressos de shows, a embalagem do meu primeiro maço de cigarros, um recorte da primeira matéria que escrevi, os contos que nunca publiquei. Uma agenda de telefones pra os quais sempre quis ligar nos aniversários, mas nunca liguei. Uma mecha de cabelos loiros. Um soneto de Vinícius de Moraes em um bilhete de despedida. Um espelho quebrado. Uma gaita em C. Um zippo.

Em cima do armário há um violão de braço quebrado que nunca mandei consertar, mas não tive coragem de jogar fora. Nele há tardes ociosas, há noites de céu e fogueira, há belos pesadelos. Acorda, não há cordas que toquem sonhos.

Possuo uma velha vitrola, uma pilha de discos que abandonei pela praticidade dos mp3, ou pela perda da paixão pela música. Desencavo um velho disco de Billie Holyday. A faixa três é As Time Goes By. Parece-me adequada.

Na cozinha, guardo as tintas das idas telas que deixei inacabadas. Entre carvões e pincéis, uma lata grande de removedor.

Espalho em círculos o removedor pelo piso, cadeiras e cortinas da sala, acompanhando a voz anasaladamente apaixonante da musa Billie. Ah, Billie, como me você pode me abandonar por todos esses anos?

Da caixa de recordações, recolho o Zippo, troco o pavio e reponho-lhe o fluido. Ateio fogo em uma caixa de papelão com jornais velhos. Leio a primeira linha de cada uma das antigas cartas antes de atirá-las ao fogo e observo, enquanto as cortinas dançam tango com as labaredas e o piso estala sob o calor do fogo. Sinto a fumaça invadir meus olhos,
mas não licrimejo.

Sorrio o sorriso dos dentes estragados pelos anos de fumo e displicência.

Quanto tempo levará a fumaça pra me encobrir os sentidos?

quarta-feira, 18 de junho de 2008

E como todo ano, eu juro que vou mudar. Rá-rá-rá...

Pois bem, caríssimos visitantes do Prozac, finalmente é dia 18, portanto uma semana e um dia passados do meu aniversário.

Terminado o prazo de banzo de envelhecimento, que neste ano veio seguido do banzo do divórcio e as férias mais estúpidas possíveis após três anos ininterruptos de trabalho escravo, poderemos retomar a programação normal, com algumas reformulações. E o que isso quer dizer? Basicamente, quer dizer que meu índice de veadagens cairá bastante, em detrimento do índice de grotesco, esdrúxulo, obsceno e, vez ou outra até cômico. Quiçá até um dia algo esbarre no instrutivo, mas acho pouco provável que se retire algo realmente aproveitável do que pulula na minha mente no momento.

Não, não deixarei de publicar literatura. Textos imensos com linguagem desnecessariamente rebuscada e firulas poéticas são a alma desse blog, bem como do seu autor. No entanto, contudo, porém, entretanto, todavia, sou um geminiano com ascendente em gêmeos, o que me dá direito não apenas a duas, mas sim a quatro - isso mesmo, Sílvio, QUATRO! - personalidades distintas, sendo que minha Lua em Peixes garante-me que todas elas sejam adequadamente esquizofrênicas e possuam longo séquito de amigos imaginários, ouçam vozes e sirenes á noite e acreditem no Brizola.

Portanto, em breve surgirá aqui um sistema de arquivamento distinto para cada tipo de texto – de prosa poética á contos de sexo, violência e sexo violento; de artigos sobre literatura francesa á avaliação de marcas de cigarro paraguaio; de relatos da minha desinteressante e mal-humorada vidinha medíocre até observações sobre a mostra de cinema sueco do Centro Cultural Vergueiro em cartaz essa semana.

É claro, eu prometi isso duas vezes este ano, mas dessa vez vai dar certo. E por que eu sei disso? Ora, porque a Voz me disse, e também porque pela primeira vez nos últimos quatro anos de intempéries, troca-trocas e desacertos, estou completamente solteiro de verdade, em um bairro cercado de igrejas evangélicas no qual não conheço ninguém e morando de volta com mamãe, o que me garante a falta total e absoluta do que fazer entre as madrugadas de segunda à quinta-feira, nas quais tentarei me manter sóbrio (um dia de cada vez!). E, além disso, eu já não preciso mais me barbear!



E pra provar que isso aqui tem alguma qualidade, olha o reconhecimento de qeum manja! O caio, do blog Idéias de Caio!, me mandou um selo de presente! Ó que bonito:
Se Oxalá Huxley e os entorpecentes ajudarem, vou soltar uma média de três postagens semanais. Do contrário, a paciência é uma virtude, esperar é saber e quem espera sempre alcança – três ótimos motivos para vocês continuarem freqüentando o blog, ok?




Hei, eu tomei uma decisão adulta! Parabenizem-me antes que eu mude de idéia!




*Nota: opiniões seriamente sujeitas a brusca mudança de idéia, de prazo e de posologia medicamentosa

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A Rosa de Aquiles


Fazia frio e ventava em São Paulo
Bailaram belos calcanhares de aço
Sobre o vale de espinhos, reflexo em restauro
Anunciando a flor que brotou no asfalto


Brotou a semente de uma flor-de-(E)lis
Até desabrochar em puro grito
De orgasmo, num instante de infinito
O Nirvana dos budas ditosos
Pele tal qual brasa, metal tal qual ossos
Fúria branca e frágil, sutil fortaleza de giz

Façam completo silêncio, paralisem o poema
Admirem a flor que nasceu
Sua cor morena
Suas pétalas sorrisos

Seu nome não está nos livros
Furou o asfalto, a morte morreu

Sim, é realmente uma flor
E é linda.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Testamento Redemptório de um Lázaro Suicida

"Perdoem a extensão. certos momentos exigem paciência"
Completo agora os últimos minutos de meus vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil.

Aos vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, vivi como nômade pelas catacumbas labirínticas de minha cidade delírio. Diversos Eus em diáspora pelo deserto de Adão no ventre da serpente. Fui poeta, músico, ateu. Fui vagabundo, explorador, parasita. Fui bêbado, filósofo, amante. Fui um vazio cheio de histórias interessantes.

No curso vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, tive realmente apenas quatro mulheres, dentre as tantas carnes e gemidos que passaram por meus lençóis.
...A primeira que amei era bailarina. Frágil, era vidro e se quebrou. Ainda me lembro, em pesadelos saudosistas, do cheiro dos hospitais. A cor desiludida dos hospitais. As agulhas calculistas dos hospitais. Os sons dissonantes dos hospitais. A crueldade medida dos hospitais. Os dias nos hospitais ainda me freqüentam a noite. O terno que usei em seu enterro, nunca mais o vesti. Carrego-o comigo quando mudo de casa. Nunca me mudei dos hospitais.
...A primeira por quem me apaixonei era leonina. Era menina ainda, e menina encantou-me. Neguei seu amor pela minha desnecessária dor. Carreguei-a na lembrança pelas noites em que me cerquei de vinho e espinhos. Assisti tornar-se mulher, á distância. Aplaudi-a de longe, de meu camarote mofado. A menina por quem me apaixonei descortinou-se dourada no palco mundano decadente que se encanta com seu canto canário. É imperatriz de si mesma, cercada por servos de si mesmos. Não há deus ou diabo que lhe governe as vontades. Seus calcanhares de aço galgam caminhos dos quais fugi. A menina por quem me apaixonei tornou-se mulher, e eu, cadáver de minha meninice, aplaudo com mãos arenosas que já não ecoam além de meu camarote mofado. Afogo-me em meu eco surdo.
...A primeira que machuquei era madre-pérola. Sutil, rósea, etérea. Chorava mais do que sorria. Criava em tinta e papel a mulher que não ousava ser. Sonhava vidas e vivia silêncios. Dentre as mulheres para quem menti, dentre as camas que freqüentei, dentre as cicatrizes que espalhei, foi a única por quem traí um “te amo”. Foi o único sangue, entregue-me de livre vontade, de que senti o gosto. Foi lírio que esmaguei. Foi a inocência que matei.
...A primeira mulher que me enganou era cocaína. Colecionava borboletas, cultivava beleza na morte que infligia cínica. Trouxe-me á tona a repugnância que nunca consegui encontrar no vinho, no vício, na vida. Presenteou-me com toda a ojeriza que busquei em uma decadência construída. Dei-lhe, em troca, o tapa que tanto procurei e nunca recebi. Arrastou-me ao inferno que tanto busquei. E, no final, alcancei a indiferença que sempre desejei. Quando lhe cuspi ás faces, harmonizei-me com o deus que sempre quis ser. Enoja-me o deus que sempre quis ser.

Por vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, dividi casas e copos com corpos vazios de almas. Guardei fotos de que não tenho saudades. Esqueci nomes que pronunciei como escarro. Vidro moído que engoli á seco.

Durante os meus vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, conheci boas pessoas, que atirei ao limbo dos puritanos. Mãos estendidas que troquei por solidões românticas. Amizade que a vaidade tornou ofensa. Reinar no inferno antes de servir no paraíso.

Durante meus vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, tive um único amigo por quem morreria. Apunhalamo-nos as costas em abraços fraternos. Esquecemo-nos um do outro para que pudéssemos esquecer-nos das correntes que arrastamos. Imolamo-nos em altares de pedra para pagar os cadáveres de nós mesmos que espalhamos sob um céu de corvos carniceiros. Em algum ponto dos vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, perdi um irmão.

Por vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, ostentei a obviedade iconoclasta como sabedoria. Alimentar a hipocrisia dos adormecidos só os embriaga de ignorância, e perante ignorantes o fingidor é visionário. “Todo poeta é um fingidor”, disse o homem de mil homens. Bastardo! A poesia é a verdade que se apresenta ao poeta. A poesia existe sem o poema, o poeta é servo de sua vontade. Fingidores são servos da víbora que sibila no pântano de sua mediocridade. Revesti-me da Áurea Mediocritas de uma Arcádia às avessas - pirita reluzente ausente de valor.

Por vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil carreguei estandartes falidos entre legiões aleijadas. Sustentei, com vinho e lascívia, lágrimas de indigentes que precisavam de água e cruz. Falso Dédalo que fui, dei-lhes asas de cera para transpor vulcões flamejantes. Gozei sua queda para encobrir de minha vertigem. Traí-lhes.

Por vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, sonhei sonhos que neguei por pessoas que neguei desperto. Cultivei um pai que não conheci, que vi envelhecer trezentos séculos confinados em uma casa de que fugi, e vi fugir de casa um pai que rejuvenesceu trezentos séculos e um dia por um sonho que sempre negou por pessoas que assumiu sem sonhar. Desprezei um pai que cultivei e amo um homem que desconheço.

Por vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, acompanhado de um cachimbo rachado – Ceci nes’t pas une pipe - discos arranhados e poetas mortos, percorri mil séculos de que não me lembro, cantei versos que nada significaram, louvei deuses que não conheciam as vozes de seus próprios oráculos. O tolo sem número em um tarot de cartas marcadas. Un coup de dés jamais n'abolira le hasard

Por vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, fui fantasma de MacBeth, um conto louco dito por um idiota, uma história cheia de som e fúria, significando nada. Signisangrando só. Do pó ao pó.

Aos vinte e três anos de uma eternidade volátil, de veias secas da peçonha, recuso a maçã viperina. Suicida da vida que encenei, dançarei atrás das cortinas que tecerei de pele e prece.
Ao fim de um último tango em Paris serei Lázaro.
Sudário ao pó.

Nu ao vento.
Livre.