Centro Cultural Vergueiro. Como uma frágil reluzente bolha de sabão em meio á uma pegajosa mancha de óleo, ergue-se a edificação de formas irregulares , oásis onírico em meio á crua aspereza da realidade asfáltica metropolitana.
No jardim de concreto e aço retorcido, acomodam-se os refugiados da violenta urbes, enraizdos em bancos de madeira morta. Um maço de cigarros o bolso e um punhado de guardanapos sobre um Dorian Gray de capa dura - prancheta improvisada - enraízo-me também para me fazer espectador.
Mesas quadriculadas á um canto, sobre uma densa aura de concentração, dois enxadristas se estudam. O mais jovem, armado com um sorriso debochado, bermudas e barba cuidadosamente abandonada, acende confiante um cigarro. Move as peças como quem dança uma valsa sozinho, lenta e graciosamente. Sorri com peões.
O mais velho, compenetrado, exibe vasta geografia rugosa na testa.pensa, toca a torre, ensiaia, retorna, suspira. Por fim, floreia um L com o cavalo e retoma seu posto complacente de monge de batalha.
À direita, apoiada sobre um par de pernas displicentemente juvenis, uma colegial de cabelos de violeta. fala animada ao telefone ao mesmo tempo que toma sorvete. engole uma raspa gelada e gargalha de algo vindo do outro lado da linha, exibindo orgulhosa o aparelho ortodôntico. Ah, Nabokov, tremerias de orgulho...
Num discreto canto jaz em declive um telhado baixo de vidro, monumento em advertência aos verdugos e beatos hipócritas, com suas línguas afiadas, de que todos carregam seus próprios pecados.
As tristes telhas transparentes abrigam um pouco ortodoxo casal. Maõs atadas braços enlaçam, bocas resvalam e barbas se enroscam em meio á olhares periféricos, num amor vigiado de fora pra dentro e de dentro pra fora.
Um poeta grisalho inteiro oferece poemas impressos por moedas. Pobre cego, não percebe a inutilidade de versos presos em papel neste momento, aonde as vidas viram versos eternos na efemeridade do instante único de liberdade lúdica.
Xeque! O canto trêmulo do lábio trai a expressão monástica atrás do tabuleiro. Trinta segundos (tic), quarenta segundos (tac), cinquenta segundos (tic)... Torre avança furiosa e toma o cavalo, qeu só pode agora agonizar no limbo ao lado. O sorriso do jovem arlequim á frente se alarga e toma vida, desliza nm fluxo contra-sanguínio pescoço abaixo, tórax, braço mão, dedos e explode no bispo negro, que corre feroz em direção ao rei branco. Xeque-morte. Outro cigarro cúmplice sinaliza a vitória calada. Reverências respeitosas, os soldados retomam seus postos para nova batalha.
A lolita lilás lambe os lábios, lançando lânguidos olhares á um lépido leitor ao lado. Desconcentra, desconcerto, desafio. Aproxima o livro do peito e retorna resposta sob os aros dos óculos. Lutam um tango de olhares, de gestos sutis, viradas de ombro , jogadas de cabelo. Noclímax do jogo, as pernas desenlaçam e pegam carona num rebolado ritmado, carregando sobre as nádegas a menina de uniforme, abandonando confuso o parceiro sob a luz friado holofote. No ar, perfume de menina. No chão, a embalagem do sorvete.
Os suaves amantes se foram sem que eu notasse. Em seu lugar, agora, há uma senhora de obesa simpatia, apoiando a caneta sobre um caderno. Talvez escreva sobre o rapaz de jeans rasgados que rabisca guardanapos. Talvez sua visão seja mais interessante.
Um café com o poeta, e fecha mais uma tarde banal.
terça-feira, 26 de junho de 2007
A poesia da tarde banal
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário