terça-feira, 10 de julho de 2007

Jazz e fumaça, quando a noite vale a vida

O que seria de mim sem Tonny Bennet? Sem Sinatra ou Dianna Krall?

Numa noite só, aquela casa enorme, aonde o único som que se ouve numa sexta feira á noite é o som da própria respiração. As batidas do coração parecem acompanhar os suspiros, os passos perdidos, num estranho compasso, hipnótico, perturbador... Ah, se não fossem os acordes suaves do piano, do cello e da guitarra fugindo sorrateiros do velho aparelho de som, aquele chiado charmoso dos LP's lavados com sabão de côco e água morna, como só o apaixonado colecionador sabe lavar.

Numa noite como essa a gente pensa em tudo. Mulheres, amigos, saudades... mas a noite seria solitária, mesmo com todas essas presenças imaginárias, não fosse o bom jazz.

A fumaça que sai do cachimbo, preparado coo um ritual sacro, dança um ballet sensual, acompanahndo cada nota do sax cadenciado. É um espetáculo fantástico, inebriante, observar as formas abstratas, cizento-azuladas, contra a luz torpe do abajur cuidadosamente coberto com uma echarpe de seda negra.

O tilintar do gelo do copo de conhaque, embalado pelo balançar da mão vagarosa e relaxada é tão suave quanto o sabor da bebida. Acompanha o som dos próprios pensamentos, e para junto á eles, á cada gole, sorvido quase que sexualmente.

Devo tudo ao Jazz. Ele transforma o vício do fumo em arte, em sensualidade; transforma a bebedeira solitária num batismo secreto, sagrado; transforma a saudade em um filme, e decepções em risadas abafadas, debochadas. As lágrimas se tornam um sorriso no canto da boca, com ar de sarcasmo, de aprendizado. E tudo fica masi leve, naquele instante, naquelas notas singelas e solitárias de um piano amigo.

Obrigado, Frank, por todas as noites.

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