quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Cronologia de um ébrio cosmopolita

-Um martíni, mexido, não batido.
A primeira vez que ouvi 007 pedir seu tradicional drink foi, segundo lembrança nebulosa, em “From Rússia with love”, com o sotaque carregado de Sean Connery. O que me impressionou na cena, no entanto, foram as longilíneas pernas que trouxeram num andar ritmado a belíssima loira, femme fatale bolchevique, junto ao balcão do bar. Ela toma um gole do Martini e ergue a perna, exibindo a cinta-liga negra convidativa como um pote de balas de consultório médico, ali posto pra pegar à vontade.

A ligação foi inevitável, eu havia descoberto o maravilhoso mundo do prestígio social etílico, o qual perseguiria por toda a vida.

Pouco tempo depois, sob forçoso pretexto da edificação moral, adentrei o universo pavloviano da primeira comunhão. Entre cochiladas, tediosos sermões e demais abstrações dominicais, adquiri no milagre enólogo de Cristo o alívio permanente para minha consciência e alma peregrinas através do caminho das videiras.
Já adolescente, não possuindo grandes dons atléticos, dinheiro ou televisão à cabo, vi-me acuado, obrigado em nome da coexistência social, a ser ao menos inteligente. E foi em meio aos livros que descobri a versão divertida da religião, na figura de Dionísio, cercado de ávidas bacantes (que numa cabeça púbere são mais ou menos como paquitas bêbadas sem grande auto-estima). Em seguida veio a arte de Tolouse voando alto nas abssíneas asas da fada verde, e a literatura de Baudelaire e seu “Clube dos Haxixeiros”; Vinícius de Moraes e seu uísque – “cachorro engarrafado”; Kerouac, Ginsberg e os muy locos Beats; e por fim o fino brandy da “Geração Perdida”, patrono dos etílicos literatos, Hemingway.

Nessa fase senti pela primeira vez a triste ressaca da derrota e entrei num ciclo depressivo ao tentar ler “Finnegans Wake”. Acabei no irlandês “Finnegans Pub”, sob tratamento intensivo, aonde se reúnem aqueles que amargam a bad trip das ininteligíveis justaposições e aglutinações amálgamas de Joyce. Foi lá que descobri, entre as mesas de bilhar, a sensualmente trôpega embriaguez swingada de Bob Dylan e Billie Holliday. A epifania suprema veio com Tom Waits, e mais no fim da noite uma paixão platônica por Amy Winehouse.
É claro, nem tudo são flores, a maçã da serpente (cidra, numa versão menos conhecida) acabou com a boa vida do casal primogênito. Sendo assim, pais, amigos, assistentes sociais e vendedores de água de côco e sanduíche natural, não pouparam esforços para empreender uma inquisição puritana, brandindo tochas e livros de auto-ajuda embaixo das janelas da Vila Madalena. Ces't la vie, joga pedra na Geni.

Por sorte temos nosso valor mercantil assegurado na parnasiana cartilha moral capitalista, representados por fidedignos seguidores da bandeira boêmia, como Lula, Bush, Jango, Yeltsin, Churchill, todos engravatados bem sucedidos, para provar até onde pode cambalear um ébrio de valor.
Finalmente venceu o alarme do mundo adulto e fui levado ao esclarecido circo acadêmico. O rito tribal de passagem para o mundo das letras começa com o som de dezenas de máquinas de cabeleireiro chiando sincronizadas, pinturas de guerra e banhos de cerveja, culminando fatidicamente numa cama desconhecida, ao lado de uma bela desconhecida, com um gosto já bastante familiar encarnado na garganta. Seguir-se-ão quatro anos de ritos cumpridos religiosamente todas as sextas-feiras e aulas vagas na companhia de dedicados garimpeiros do conhecimento.

Vem então o primeiro estágio, aonde a convivência com editores experientes conduzirão-me aos parcamente iluminados corredores das casas de tolerância nos aniversários dos colegas de escritório, festas de fim de ano e premiações cheirando a Merllot Blanc semi-sec e charutos cubanos contrabandeados pela “Ponte da Amizade”, que liga o Brasil ao Paraguai.
Trinta anos de enebriante serviço, troca-se o paletó por chinelos e camisa abotoada até a metade. Vai-se o computador do escritório, vem o dominó da praça, e o uísque cede lugar aos multicoloridos comprimidos que o SUS não cobre. Antes que se dê conta, os netos correm nus pela casa. Antes que se dê conta, os netos assistirão velhos filmes de 007, e sorverão sua juventude em goles bem servidos, escarlates, aromáticos, suaves, sutis e sedutores.

Antes que se dê conta a vida pede a saideira.
Tudo bem, do lado de lá todos transformarão água em vinho. Ou Martini - batido, não mexido, por favor.
Memento mori, Carpe diem et noctem.

1 comentários:

Fernanda disse...

mas de certa forma não foi bom????

e todo aquele papo de que tudo na vida se deve observar o lado bom????

melhor é aproveitar tudo, do que um dia parar e reclamar que não fez nada...

de tédio vc não vai morrer!!!!

Saudade!

bjos