sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Petrolífera consciência

Dezoito anos completos e finalmente cumpre-se o prazo de carência pré-estabelecido em constituição federal para a condição sine qua non à liberdade: a carta de habilitação. Foram dezoito anos de miniaturas, álbuns de figurinhas, modelos de controle-remoto, video-games, todos os preparativos para o primeiro automóvel.

Já havia aprendido a dirigir, é claro, naquelas férias passadas no sítio do tio bacana que os outros tios chamavam, carinhosamente, de débil mental. Aprendeu não só a correr como louco, mas também a derrapar, dar cavalo-de-pau e cantar pneu. Só não teve paciência para entender a arte matemático-geométrica da baliza, sempre derrubava os cones, mas isso não era importante, não impressionava ninguém. O que importava é que seis meses depois saía vitorioso da auto-escola. O caminho foi suado, custou duas reprovações no exame regular mais quinhentos reais para a aquisição ilícita da carta, mas valeu a pena.
Decorou todas as apostilas do cursinho pré-vestibular, com o objetivo fixo da promessa paterna para caso de aprovação. Passou, raspou a cabeça e correu, ainda com o rosto pintado, para a revendedora de carros usados. As duras noites de estudo deram retorno. Já não era apenas um rapaz de classe média sem importância, era agora mais que um mero cidadão ou estudante: era um orgulhoso motorista!

Papai, conhecedor dos índices de violência do perigosíssimo bairro dos Jardins, entregou junto com as chaves um cheque com o valor anual do seguro completo, que foi sabiamente empregado pelo mais novo proprietário automotivo num aparelho de som de última geração, rodas de liga leve e faróis de néon.
Os primeiros fins de semana foram empregados na lavagem orgulhosa da máquina com a garagem aberta, exibindo-se para a vizinhança. O veículo ainda não circulava, já que a mesada, investida em bibelôs de painel, luvas de couro e adesivos que tapavam boa parte do vidro traseiro, não permitia encher o tanque de gasolina. Mas isso também não importava, ele e o carro eram agora um só, os batimentos cardíacos no ritmo dos pistões, os pedais extensões dos pés, as rodas eram garras ansiosas por rasgar os asfalto. Nunca mais chegaria tarde em lugar nenhum, nem precisaria conciliar as baladas com os horários do ônibus. Teria popularidade, mil garotas, seria bonito e respeitado, como aprendera nos comerciais de televisão.

Finalmente, tanque cheio, saiu radiante para a faculdade. Feroz, soltou o freio de mão e alcançou a marginal, aonde o ponteiro do velocímetro estacionou. Nos primeiros trinta minutos, usualmente gastos dentro do metrô nos tempos de pedestre, avançou quase quinhentos metros. Uma hora e quarenta e cinco minutos depois, descobriu existirem mais automóveis do que estacionamentos. Cinco reais gastos numa folha de Zona Azul, cujo tempo expirado lhe custou a primeira multa.

Desanimado, rumou para o shopping em busca de consolo, aonde batalhou durante vinte minutos por uma vaga no estacionamento apertado. Voltou, para encontrar um buraco vazio aonde antes jazia o novíssimo som estéreo. Nem cinqüenta quilômetros rodados ainda, o barulho arranhado do motor tomou do cartão de crédito cinqüenta reais em óleo lubrificante. No farol, alguns metros adiante, um garoto de estilete em punho lhe tomou o resto da mesada.

Mais duas horas de calor insuportável preso no trânsito a caminho de casa, estressado como nunca na vida, trocou de roupa e pediu dinheiro emprestado para finalmente desfrutar a glória da noitada motorizada.

Vinte reais de estacionamento depois, encontra os amigos num convidativo banquete de cevada, mas tomou Coca-cola com sabor de responsabilidade a contra-gosto. As caronas consumiram o restante do tanque.
Uma hora de trânsito, estava em casa. Ainda não se sentia mais bonito ou interessante, mas certamente já estava mais pobre. Ligou a televisão. No telejornal, aquecimento global, aumento no preço da gasolina e acidentes de trânsito.

No dia seguinte não teve dúvidas: anunciou o carro nos classificados de vende-se, lubrificou a correia da bicicleta, apertou o capacete. O vento no rosto, o sangue nos músculos, a emoção em cada metro, chegou a aula em tempo recorde.

Às vezes, duas rodas valem mais que oito cavalos.
Pra bom entendedor, meia pedalada basta.

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