segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O segurança

Pela terceira vez, traz o relógio até a altura dos olhos.Quando finalmente os ponteiros marcam ás seis e trinta da manhã o gigante arranca violentamente o cobertor que protege o mendigo sonolento, fazendo-o traçar uma elipse em torno do próprio eixo no ar, e com uma velocidade assombrosa golpeia a coxa do infeliz com o bico da bota, lustrada á pouco, direto nos rins - Levanta, vagabundo, que o sol já saiu! - fazendo com que o mendicante ponha-se á correr tão logo consiga preencher de ar o corpo letárgico. Sendo este um ritual diário, não seria necessária a pancada, mas rotina é feita pra ser seguida, independente do espírito de cortesia para com o freguês. Chama a copeira do hotel pra jogar água no recém desocupado passeio-leito e vai cuidar de seus afazeres extra-oficiais.

Passa pela banca de jornais, onde pega seu exemplar diário de cortesia e cruza a rua em direção ao boteco do portuga, tomar o primeiro de seus vários cafés grátis do dia. Antônio não paga nada no perímetro dos dois quarteirões da rua de que toma conta. Ele é segurança do hotel, mas cuida do pedaço. garante que os meninos não peçam comida para os fregueses do galego, controla brigas de bêbados, negocia com os fiscais da vigilãncia sanitária, e a comunidade agradece como pode.

Em público, Antônio lê apenas a seção de esportes. Tranca-se no banheiro para ler o seu horóscopo diário, que é pra ninguém pensar que o soldado virou veado. Ele sabe que seria praticamente impossível que qualquer um que o conhecesse - e todos o conheciam - fizesse mau juízo do homem, mas "o seguro morreu de velho", já dizia sua falecida mãe. O restante do jornal, leva pra casa. Diz que é importante pra a afilhada, residente em seu barraco desde os oito anos de idade, ler pra virar gente. Ela nunca lê.

Antônio sempre carrega sua ferramenta de trabalho, um pedaço de pau devidamente envernizado, preso por um furo á um pedaço de cizal. O cacetete improvisado tem o peso ideal pra, bem mirado, arrancar alguns dentes, ao mesmo tempo que permite uma mobilidade fantástica proprocionada pela alça, muito melhor do que a tonfa militar que o dono do hotel lhe comprou quando contratou, há muito tempo atrás, seus serviços. Carrega também uma navalha, um tanto quanto cega. Costumava usar em seu lugar uma faca de combate, lembrança dos tempos do quartel, dizia orgulhoso (na realidade nunca sentiu o peso de uma farda. Apesar da vontade de servir, foi recusado. Pés chatos, foi o que alegaramna época). Perdeu a faca num dominó pra um velho japonês da praça, que lhe deu a navalha como consolo. Possuiu também um revólver, mas colocou no prego pra comprar uma casa de bonecas pra afilhada, orgulho de sua vida.

Uma vez por dia o policial militar Nogueira passa na rua pra verificar se está tudo bem, e recolhe sua parte nos negócios á cada quinze dias. Caso alguém desrespeite as leis locais ou cause incômodos demais, Antônio entrega o subversivo para o arauto de cinza, que toma as providências cabíveis. No pedaço, a polícia é serviço terceirizado, Antônio é a lei.
As regras são claras: Erva, pode vender só até as dez da noite. Pó e pedra, só nas portas das casas autorizadas, respeitando-se a cota limite por cliente. Puta na rua só depois das sete da noite, exceção feita ás calçadas dos hotéizinhos, aonde a circulação é livre. Todos pagam suas taxas diretamente á Antônio, que faz pagamentos à policia, fiscais e demais despesas burocráticas.

Os negócios começaram á evoluir depois que alguns rapazes, estudantes universitários, alugaram um quarto no hotel para montar seu escritório de fornecimento de drogas para viciados de alto padrão. Administram tudo por telefone e internet. Acertaram com dois taxistas do ponto da praça para fazer as entregas. Quando o primo de Antônio ficou desempregado, contrataram-no para fazer entregas emergenciais de moto. Eles sempre trazem livros para a afilhada de Antônio. Bons garotos, dizia Antônio. Estudo dá futuro.

Outro dia apareceu um jornalista fazendo umas perguntas pra Antônio sobre o esquema dos garotos. Ofereceu cinquenta reais só pra saber mais detalhes. Antônio se propôs á levar o tal pra o escritório por cem reais, que foram pagos de bom grado, com a promessa de mais cinquenta caso o negócio fosse realmente bom. Antônio levou o repróter até o quarto duzentos e cinco, no fundo do corredor,pedindo silêncio. Abriu a porta, apagou as luzes e só parou de bater quando sentiu o crânio ficar macio. Mandou o taxista levar o sujeito até a Santa Casa de Misericórdia do outro lado da cidade. A jaqueta de couro e a mochila, deu-as ao bêbado catador de papelão do albergue, aquele que se dizia poeta e escrevia versos com giz nas paredes das casas e comércios de madrugada. O gravador e a câmera ele guardou pra dar de presente á afilhada.

No fim do dia, Antônio toma um copo de cachaça - só um - mas este faz questão de pagar. É, afinal, um homem de princípios. Costumava pegar também um maço de cigarros, mas parou de fumar depois que viu um bastonete de nicotina em cima da cômoda da menina. Isso foi á dois anos, ela tinha apenas onze primaveras de idade, e desde então ele nunca mais fumou.

Toma uma lotação pra chegar em casa. Janta, confere os deveres da escola da afilhada e vai para o quarto rezar em frente ao retrato da esposa falecida (na verdade, a mulher fugiu com o dono da borracharia. Ele era feio, mas tinha segundo grau completo e não batia nela. Todos sabem, mas ele nega). Termina a reza, beija a foto e apaga as luzes.

Antes de dormir, vai até o quarto da menina e se deita ao seu lado. Depois de vestir as calças, dá-lhe um beijo na testa - na dela e na do uso de pelúcia - e sai satisfeito. Fuma um baseado e dorme o sono dos justos.
Amanhã Antônio teria que se levantar cedo pra trabalhar, como faz religiosamente há dez anos, mas não vai acordar. Antes de pegar no sono, uma bala fugitiva de um tiroteio entre gangues locais corre sorrateira pela vidraça pra encontrar refúgio em sua garganta, antes que o efeito do veneno colocado na comida faça efeito. Não tem importância, a menina ficará contente assim mesmo

1 comentários:

The Ideas of a Vintage Doll disse...

Nosssa!
Vc sempre me deixa sem folego!