segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Gado Juvenil

Juízes púberes são implacáveis. Executores das próprias leis, torturam paulatinamente seus iguais por suas pequenas diferenças. Apelidos, sarcasmo, agressões físicas são uma guilhotina enferrujada, e a indiferença é a pior das torturas.

Em um mundo medievalmente juvenil é preciso blindar-se, achar um refúgio onde o desprezo e a solidão não penetrem, onde as cobranças paternas por responsabilidade e a obrigatoriedade de um posicionamento frente as mazelas do mundo sejam diluídas, abafadas, por um hit sonoro qualquer, contanto que absurdamente alto. Em um mundo medievalmente juvenil, é preciso ser aceito.

O preço da aceitação social, pago de bom grado, é a adoção de uma personalidade pré-concebida, pacote de filosofias simplistas condensadas em frases de efeito, símbolos e rituais de significados genéricos, interpretados, quando não aceitos sem interpretação alguma, de maneira nebulosa por seus adeptos.

O problema dessa "ideologia fast-food" reside na incorporação fanática de um modelo ilusório de pensamento e atitude de contestação da massa de manobra, quando na realidade é baseado na imitação de modelos que, se não construídos, ao menos são explorados publicitariamente, colocando seus praticantes na exata condição que pensam combater. A condição dogmática dos preceitos adotados pelas tribos urbanas contradiz completamente a idéia falsa de rebeldia iconoclasta dos movimentos juvenis. Não se nota, por exemplo, a contradição absurda na contestação da ordem social imposta por sistemas hierarquizantes através da adoção de indumentária tribal, que não deixa de ser um uniforme, um rótulo, tal qual um código de barras, mesmo que esse vestuário vá contra a idéia de normalidade vigente na época e local atual. Contestadores tornam-se caricaturas deformadas do objeto de contestação.

Ao criar um padrão de comportamento, linguagem e estética dissidente do que rege a sociedade como um todo, e ao ser esse padrão adotado por um grupo, torna-se esse um padrão uniforme em pequena escala, que na medida que se espalha perde sua expressão e se iguala, dadas as devidas proporções, em normalidade á todos os outros sistemas de comportamento anteriores. Sendo assim, não se é diferente nem rebelde, é apenas submisso á outro sistema.

Os meios publicitários fazem uso dos estereótipos adotados pela juventude, fomentando o desejo por determinado objeto que encarna a representação do estereótipo adotado. O desejo passa então á ser confundido com necessidade, que induz inevitavelmente ao consumo. Se não se obtém o objeto em questão, o indivíduo torna-se melancólico. Freud define a melancolia como sendo, ao contrário do luto, a dor pela perda do objeto que não se conhece ou, neste caso, possue. Daí temos a explicação para a obsessão consumista adolescente e sua apatia quando não se obtém o objeto de desejo, sendo esse desejo imposto pelo grupo á que se quer enquadrar o jovem. Quando se obtém o objeto de desejo, é criada nova necessidade artificial pelos meios publicitários.

Dessa forma o contexto no qual se baseia a tribo urbana perde sua essência ideológica e passa a ser motivação mercantil para consumo de roupas, música, revistas, freqüência de casas noturnas, etc. Os ídolos iniciais são trocados por modelos fabricados, seguindo moldes da indústria fonográfica, televisiva e modal.

O que temos hoje são diversos grupos de jovens idênticos, com aspecto estético, conduta moral e mentes padronizados, divididos em séries de punks, skatistas, góticos, rappers, patricinhas e quantas mais tribos houver, mas sempre seguindo o DNA de sua tribo, tal qual os grupos de clones gerados pelo processo bokanovsky narrados por Aldous Huxley em "Admirável Mundo Novo", felizes, em sua condição alienada, por serem todos iguais em sua esfera social.


Nelson Rodrigues disse certa vez que "toda unanimidade é burra". Ele estava certo.

1 comentários:

Ana disse...

oi, Plínio.

É sempre muito bom ler seus textos para perceber sua criticidade correndo nas veias.
Texto muito bom. O triste é lembrar que já criticavamos tudo isso há 20 anos...

Beijos

PS: Fiquei feliz que vc. e Marcelo tenham se apresentado, isso vai ser muito bom...