sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O Ingênuo

"Se arrependimento matasse", pensava Almir mirando o vermelho que cobria o chão palmo a palmo...

Durante doze anos de serviço, Almir nunca se atrasou para o trabalho. Funcionário exemplar, ficou doente apenas duas vezes, mas veio trabalhar assim mesmo, com uma máscara de papel tapando-lhe a boca. Dá bom dia á todos, da telefonista ao chefe do seu setor, sempre com um sorriso de orelha a orelha. Usa um único copo de plástico durante o dia todo, pra não desperdiçar. Se quiser tomar água depois de ter bebido café, lava o descartável na pia do banheiro.
Almir adora todo mundo.
Almir ganhou uma placa de presente dos colegas, uma foto sua na parede, no dia de seu aniversário. Em letras douradas, lê-se "Gooffy".
Almir, que não fala inglês, nunca teve coragem de perguntar do que se tratava, mas ficou orgulhoso assim mesmo.

O som das sirenas ao fundo aumentou gradualmente, até que a porta se abriu com violência pra dar passagem aos paramédicos.

A idéia da placa veio do sub-diretor, mas foi recebida com bom humor pela diretoria e demais colegas de repartição, que decidiram mantê-la na parede. O sub-diretor Nogueira é um bom amigo, ainda mais depois da festa de fim de ano da empresa, quando conheceu a esposa de Almir. Tornaram-se ótimos amigos, passaram a noite toda conversando e, quando a esposa - Jussara - ficou cansada, Nogueira logo se dispôs à levá-la pra casa, só pra que Almir não perdesse o discurso do presidente e o brinde. Nogueira é um cara legal.

Os dedos de Almir perderam a força, e ele notou que já não segurava o revólver. A arma estava largada a poucos centímetros no chão. Sentiu-se empalidecer. Achou engraçada a sensação. A gente não sente ficar pálido, como seria sentir frio ou sentir enjôo, mas sentia claramente as cores abandonarem-lhe a face, como se escorressem pescoço abaixo, cores viscosas e adocicadas. Estaria seu aspecto muito ruim?

Passado algum tempo, a amizade se estreitou bastante. Nogueira buscava Jussara duas vezes por semana em um curso de corte e costura que iniciou dalí a um mês e ficava no caminho da academia em que malhava o sub-diretor. Ele buscava e deixava Jussara em casa pontualmente ás dez da noite, dava boa noite pra Almir e ia embora, cantarolando "La Traviata". O curso não é lá muito prático, notou Almir, já que a esposa nem sequer remendava suas meias. Em contrapartida, ela aparecia com vestidos novos todo mês, que dizia fazer nas aulas, vestidos belíssimos aliás, iguaizinhos aos de loja. Chegou até a levar uma camisa pra o marido. E certamente a esposa adorava costurar, visto o bom humor quase eufórico que antecedia as aulas. Isso era tudo o que importava para o marido apaixonado.

O cano de metal frio ainda desprendia parca fumaça, como se rosnasse anunciando que ainda podia atirar se assim quisesse. Mas parecia cansado agora, muito mais leve, quase um brinquedo inocente.

Almir e Jussara têm um filho de dezenove anos, mas ele mora com os avós em Campinas desde que a mãe descobriu as inclinações sexuais pouco cristãs do garoto. Jussara é uma católica beata, quase uma santa, dizia Almir transbordando de orgulho, e jamais aceitaria um desvirtuado sob seu teto. Ele queria defender o filho, disse na época que não importava algo tão pequeno, que filho é sempre filho e outros blábláblás que ouvira por aí, mas a esposa foi irredutível. Mãe e filho não se falam desde então.

A mulher gritava como ele jamais imaginou que ela fosse capaz. Enrolada ainda no lençol manchado, os homens de uniforme tiveram que carregá-la para fora do quarto, mas ela lutava tal qual nadasse contra forte correnteza. Almir não pode deixar de notar que os seios á mostra, os cabelos desgrenhados e os olhos chorosos tornavam a cena um tanto quanto ridícula. Ainda assim, era bonita. Pensaria que quase se parecia como uma gravura de Goya, se soubesse algo sobre artes.

No último feriado, Pedro, o filho de Almir e Jussara, veio á São Paulo, como em todos os feriados, pra visitar o pai. Falou-lhe da estranha rotina de Jussara (ele só chamava a mãe pelo nome), tentou ser sutil, usou todos os eufemismos possíveis e, finalmente convencido da ingenuidade estúpida que conferiu ao pai a placa na parede do escritório, foi explícito em relação ás traições da mãe. Mostrou um trabalho detetivesco acurado, fornecendo o endereço do quitenete que abrigava os amantes durante as supostas aulas. Ao fim da conversa, não tinha certeza se o pai tinha compreendido tudo corretamente, mas com certeza o velho estava transtornado. Sentiu um pouco de pena do pai, mas a vingança contra a progenitora venceu sua complacência, despontando num sorriso cínico quando, sozinho, brindou sua malevolência filial com um cigarro mentolado.

Sentiu leve enjôo ao observar o corpo jogado ali, sem vida. Pareceria inocente, não fosse grotesco. Não sabia se deveria sentir-se aliviado, alegre ou triste. Só sabia que deveria sentir algo, e no momento não sentia nada, absolutamente nada a não ser aquela sensação esquisita de quando a gente termina um livro muito bom. A brancura inquisidora do O quê fazer agora?

Almir não digerira ainda tudo o que ouvira. De repente, viu-se no papel que desempenhara durante toda a vida. Capacho, serviçal, a piada do escritório e, ainda por cima, corno! Ah, mas isso não fica assim, pensou com o restante inexpressivo de sinapses neurais que ainda lhe prestavam algum serviço após tantas nauseantes revelações. Chegando em casa aturdido, teve uma epifania diante do retrato do casamento sobre a cômoda. Correu para o baú de velharias paternas, única lembrança da infância, e retirou de lá o revólver ancião, instrumento de trabalho do velho capataz de canavial que o pôs no mundo. Enrolou-o toscamente numa toalha de rosto e pôs-se á caminho da cova aonde sua mulher gozava sobre sua dignidade.

Bang no porteiro e subiu direto. Bang na fechadura, como nos filmes policiais de madrugada - Ah, meu deus, Almir, que é isso?
Bang, bem mirado na cabeça. Tudo branco. Gritos, sirenes, sangue. Tudo preto. O corpo, a leveza, o vazio. A luz.

Almir sentiu um desconforto ao ver o corpo virado. Depois entendeu que aquele corpo já não poderia causar sensação nenhuma. O choque de se ver estendido no chão, coberto de sangue e sem vestígios de um rosto humano antes onde ficava um sorriso quase débil à sinalizar sua ingenuidade para todos era apenas um ranço de seu antigo estado carnal, saudosismo físico da vida que já amara e aprendeu á enojar. Agora estava tudo acabado, ele mostrou que não seria feito de bobo para sempre. Mostrou à eles que tinha coragem, foi lá e fez. Satisfeito, só resta caminhar para a luz.

6 comentários:

Madalena Barranco disse...

Olá Plínio, ai, ai, no começo fiquei com peninha do homem, mas depois... Que feio isso de não saber perdoar! Você contou a história de forma interessante e quase me fez achar que o filho havia puxado o gatilho, fisicamente, porque na realidade ele foi o mentor. Abraços e ótima semana!

Vinícius Peixoto disse...

Entrei por curiosidade, confesso.
Queria retribuir a visita.
E tive uma bela surpresa!
Gostei muito dos textos.
Gostaria de te convidar para fazer parte do nosso projeto e enriquecer ainda mais essa experiência.
O que me diz?

Grande abraço, e parabéns.

Anônimo disse...

Adorei. Fazia muito tempo que não lia um texto do começo ao fim...

Zenrik disse...

Legal, também li o texto do começo ao fim, tu estás de parabéns Plínio, só achei que poderia dar mais detalhes do que acontecia entre Jussara e Nogueira naquela supra citada Kit (rsrs), deixaria com mais libído o texto. De qualquer forma PARABÉNS!

Mescalina disse...

Poxa...gostei desse clima roteiro de cinema. E a argumento é ótimo.

Carlos Matos disse...

E dá-lhe Prozac...

http://cudelontra.wordpress.com