segunda-feira, 10 de março de 2008

Putrefação Poética Paulistana

O letreiro vermelho do motel da frente derrama sua luz sanguínea pelo apartamento, profana os lençóis, as paredes e o insone sobre eles.

Me levanto e caminho para a janela. Gosto de observar a cidade do alto do décimo terceiro andar. Me deixo absorver pelo fluxo luminoso da Nove de Julho, como uma artéria aberta.

São Paulo é um bordel decadente. A Praça da Sé, uma cafetina velha e amorosa, que perdeu o viço da juventude. Abraça caminhoneiros, bêbados, velhos doentes e crianças fedorentas não como clientes, mas como filhos cansados e queridos.

Passear a noite pelo Centro Velho é humanizar-se. Sentir o cheiro das sarjetas, esbarrar nos cachorros sarnentos, ouvir o silêncio das ruas. A fedentina da Sé não vêm do esgoto. O cheiro que escorre pelas narinas, pelas entranhas, pela consciência dos mais sensíveis, vêm das pessoas. Peles famintas, flácidas, jogadas sobre os ossos como mortalhas precoces. Respirar o ar podre do Centro te faz entender que as pessoas fedem mais que os cães e as sarjetas. O terror e o prazer da imersão é descobrir que VOCÊ é uma pessoa. E você fede.

Na paulicéia, Bukowski e Baudelaire se tornam unos no fundo de um copo. A Augusta festeja madrugada a dentro. Mini-saias de Indies, góticas, universitárias, prostitutas e travestis se confundem em um mar de pernas cruzadas e abertas. Bacantes e Sátiros celebram sob luzes estroboscópicas. Um templo dionisíaco de ferro e neón, cachaça e gasolina.

São Paulo é uma galeria frankenstein. Violinistas de rua dividem platéia com repentistas nordestinos, grafiteiros sangram arte a céu aberto nas paredes dos museus fechados, crianças e limões trazem o circo para os faróis fechados. A arte da paulicéia faz sorrir pra não chorar.
Na cidade do concreto tudo é abstrato. O efêmero reina absoluto onde a aparência é moeda corrente. Poetas e mendigos convivem num mesmo corpo. Favelas e botiques respiram o mesmo ar. Cinemas glamurosos e puteiros são o mesmo esqueleto, e tudo morre e nasce diferente no intervalo de um pôr-do-Sol. São Paulo é um organismo em transformação. Uma alma em transição.

Ser paulistano é ser batizado na garoa ácida, no heavy metal dos pistões, no ar nicotinado. É olhar para o céu marrom e sem estrelas e extrair a Lua dos postes de luz amarela. Amar o belo e o disforme das ruas, dos rostos, dos restos.

Qualquer um pode nascer em São Paulo, mas só os poetas são verdadeiramente paulistanos.

10 comentários:

Vinícius Peixoto disse...

Pobre São Paulo. Pobre paulista.
Me identifico com essa atmosfera caótica e esse tom inexoravelmente necessário que você deu ao texto.
Você sempre surpreende, Zúnica.
Nossos estilos estão muito longe. Tão longe que estão intrincados.
E depois de ler isso, lembrar de Baudelaire e Bukowski, me sinto, sim, verdadeiramente paulistano.
Parabéns, sempre.

Daniel Lucas disse...

Olá..Plínio.

Jamais gostaria de ser indelicados com as pessoas que visitam meu blog.
Respeito opinião de todos, mesmo que seja a mais absurda que escuto.
Você perguntou: qual a preocupação? A preocupação é que existem leis para que carros oficiais sejam usados exclusivamente (Só) para o serviço público.

Acredito que os problemas do jornalismo são os meios de comunicação que prioriza apenas os próprios interesses.

Escândalo? É manipular o leitor - São os peculatos ficarem soltos - É o moleque morrer na favela com um tiro no peito – É a geladeira da senhora da periferia ficar mais vazia do que cheia – É o trabalhador ser tratado como uma máquina e muito mais..

Postei esta postagem dos políticos porque não acho justo esses “indivíduos” ganhar o que ganham para explorar o dinheiro daqueles que pagam os impostos.

Eles recebem o suficiente para viver bem e se locomover com o seu carro particular.

Não sei a sua realidade, mas a minha é aquela que o político só aparece em época de eleição e depois desaparece.

A minha realidade é que onde moro, poucos conhecem: Machado de Assis, Fernando Pessoa, Rubem Alves e entre outros. Ma conhecem vários tipos de armas, ou seja, que é algo terrível.


E nem um momento opinei, apenas informei. Porque existe marcador no meu blog e como pode ver: lá está escrito (informação).


Não quero intrigas com você e conto com seus comentários e quando achar que devo, responderei.

Abraços

Marcelo Fabri disse...

Sangue, suor e enxofre. Adorei o texto. Tem tanta gente que não conhece esse lado de São Paulo. Protegidos por shoppings, não sabem a poesia que estão desperdiçando.

Fernando Thadeu disse...

Ainda bem que a professora não mandou eu fazer a critica desse seu texto. Não saberia falar outra coisa se não: "Muito loko".
Essa São Paulo é exatamente a que eu falo daqui onde moro(Cohab-Carapicuiba). Ou vc mora aqui ou assiste novela. A loucura está em todo lugar, não tem como fugirmos. Só podemos ser menos loucos do que todos os outros.

O camaleão disse...

Caro amigo,

Ao ler seu texto, lembrei-me da nossa andança pela Praça da Sé. Sentimos o cheiro podre do ser humano. O nosso cheiro.

Discutimos Sartre, a vida, a moral... Fomos abordados por um malandro. Batemos um papo com ele. Tornou-se quase um amigo.

Aquele monte de escombros humanos espalhados aos cantos. Envolvidos em papelão velho. Pareciam mercadorias sem valor comercial. Senti-me algo descartável também.

Enfim, bons textos aguçam a memória e escarram em nossas caras aquilo que fingimos não ver, não saber. Mas, fazem parte de nós.


Parabéns

Madalena Barranco disse...

Oh, Plínio, em sua crônica vejo tudo menos o vermelho arterial, porque uma suave garoa ocasional, mesmo que seja ácida, lava as ruas paulistanas, e mostra o rosto de quem ama um lugar onde a poesia floresce a partir de cada rosto, de cada odor, de cada café expresso... Você fez um retrato da metrópole e não se esqueceu das estrofes. Adorei! Um grande abraço.

Nana Lopes disse...

Excelente seu texto. Tem um ritmo muito bom.

Lobo disse...

ainda bem que nao moro em SP
pois deve ser ruim sentir tudo isso que voce descreveu em sua palavras =)

Rharry Belloti disse...

Cata, amei seu comentário lá no blog!! E amei esse texto sobre São Paulo, talvez pra quem nunca tenha conhecido a cidade, como eu, seja bem exótico ouvir falar que toda "podridão" que está lá vem das pessoas e não da cidade.

Sei lá se você entendeu o que quis dizer, mas senti isso lendo seu texto. Parabéns pelo blog.
Beijo*

Quinho disse...

Retribuindo o favor:
gostei de todo o estilo "filme sujo narrado pelo detetive" ou "film noir" que você coloca em seus textos, mas não consigo comentar mais sobre o assunto, são técnicas que não conheço, então não consegui distingüir.
Você foi a primeira pessoa que comentou de verdade no meu blog, e te agradeço por isso.

Abraço