terça-feira, 1 de abril de 2008

Aulas de Etiqueta no Zoológico




Terminal rodoviário da Barra Funda. Tinha acabado de deixar minha namorada no ônibus que a levaria para Vargem Grande Paulista, e me dirigia ao metrô. Atravessei a catraca e decidi parar para tomar um café antes de ir para a faculdade, quando um vulto amarelo caiu na saída da escada rolante, como se fosse uma jaca madura. Eu estava a uns dez metros, mais ou menos, e estava sem óculos, o que me fez demorar alguns segundos para identificar a massa flácida como sendo um senhor de idade. Só me dei conta de que era um ser-humano quando ouvi um longo ‘Ôôôôxiiii...” vindo do atendente do quiosque.


Não pensei muito, quando vi estava caminhando em direção ao velho. Dois passos, acelerei para uma marcha, que virou uma rápida corrida até o corpo largado no chão. Preocupado com a falta de movimentação toráxica, aproximei o nariz do rosto da vítima, o que me levou a duas constatações imediatas: ele estava vivo, e provavelmente possuia mais etanol na pele do que um barril da toda a indústria canmavieira de Pirassununga.


O cheiro subiu quente pelas narinas, senti algumas camadas de mucosa descolando, mas não consegui deixar de me sentir responsável por aquele velhinho ali, indefeso. Parecia uma criança. Parei um segundo pra sentir compaixão, mas não pude me demorar muito, porque um peão com cara de militante do MST esbarrou em mim com uma truculência descomunal. Me dei conta, então, de que o aglomerado de gente que se formava na frente do velhinho não estava lá para prestar seu auxílio fraterno. Ele, inconvenientemente desfalecido, estava bloqueando a passagem.


Imediatamente comecei a dar-me conta dos resmungos dos transeuntes, que passavam por cima do velho como se estivessem atravessando um manguezal, erguendo as pernas e olhando pra baixo com uma expressão que mesclava algo entre nojo e raiva. Senhores, jovens, mulheres, moderninhos, crentes... passaram seguramente umas cem pessoas por cima do velho, ninguém se compadeceu.


Ergui, então, o ébrio pelos braços, e comecei a levá-lo para longe da passagem. O problema é que o cara era grande. Grande e gordo. Grande, gordo e seboso, o que dificultava bastante a tarefa.


Foi o suficiente pra macacada surtar! Como ergui o corpo do cara, a passagem por cima ficou mais difícil, e as pessoas tinham que erguer mais as patinhas pra brincar de pula-brejo. Começaram os protestos dos injustiçados:


“Larga o cara aí, brother!”
“Bêbado só dá trabalho mesmo”
“Eita, mininu, eu tô cum pressa”
“O moleque, sai da frente!”


Estava esboçando um generoso “vai à merda” pra a turba ensandecida, quando chegou uma funcionária do metrô. Com toda a sua autoridade e preparo, a mulher olhou o velho, levou a mão até meio caminho dele, voltou, levou de novo, voltou de novo, colocou a mãozinha indecisa na cabeça e lançou um brilhante “Putzzzz....”. Tirou o walk-talk e chamou reforços. Um minuto depois veio a cavalaria, dois caras pra me ajudar, finalmente, a carregar o corpo inerte pra longe da escada.


Quando olhei ao redor, vi uma aglomeração de curiosos. Uns com cara de pena, outros balançando a cabeça, certamente condenando o velho cachaceiro, e mais uma meia dúzia com uma empolgação infantilóide, como se aquilo fosse uma luta de atrizes pornôs numa piscina de vaselina.


Nessa hora, lembrei dos exercícios de controle da raiva que demorei tanto tempo pra assimilar. Adiquiri, nos anos de terapia, uma técnica muto eficaz de projeção do objeto de ódio. Funciona assim: eu me concentro no tumor com patas que está me irritando, imagino ele numa jaula pequena e fria, pulando como se tivesse um fio elétrico grampeado no... no.... lá! Aí, eu visualizo o fio elétrico preso no... “lá!” do cara e imagino que a outra ponta está presa num botão de ignição, seguro na minha mão. E aí eu aperto e me acalmo!


Funcionou bem. Eu estava calmo, imaginando aquele aglomerado de bucéfalos estrebuchando no chão com as respectivas próstatas em chamas, e já me preparava pra ir em direção à plataforma de embarque, para sair daquele pulgueiro, quando vi dois moleques fazendo tabela com algo que não parecia muito com uma bola. Me virei rápidamente em direção ao bebum, e notei que um dos pés estava descalço. Os moleques estavam jogando futebol, no meio da estação, com o sapato de um velho caído que podia bem ser o avô deles!


Aí a terapia foi pro saco. Me descontrolei! “Seu bando de animais!”, gritei. “Tomara que vocês encham os cornos de pinga e sejam estuprados”! “Sífilis pra vocês! Sííí-fí-lis!!!!”.


Não deu outra. Os dois seguranças largaram o velho como se fosse um saco de estrume no chão e vieram pra cima. Quando percebi, já estava descendo as escadas em direção à plataforma de embarque, sob vaias e escárnios. Cheguei a sentir uma coisa molhada na nuca, que rezo pra que tenha sido uma lufada de vento no meu pescoço suado.


Quando ia embora, ainda consegui ouvir uma senhora gorda dizendo: “Essa molecada precisa é de educação”.

16 comentários:

Almost Black disse...

Nunca tive mesmo muita pena de bebados. Mas uma coisa é não ter pena, outra é esquecer que o cara, bebado ou não, é um homem, tá vivo e sente dor e tristeza como todo mundo.
Acho que você foi bem digno do rótulo "SER humano" nessa atitude... Talvez se isso tivesse acontecido quando eu ainda estivesse lá eu não teria deixado você se envolver tanto. Mas fico muito orgulhosa por saber que você teve uma atitude de homem, amor.

Amo quando você é o meu valente cavalheiro que protege os fracos e oprimidos.

Mas eu não consigo deixar de pensar que para uma pessoa chegar no ponto de estar morrendo de bebada no meio da tarde numa estação de metrô... ela no minimo não deve ser muito digno de proteção...

Marcelo Fabri disse...

Carái! Que estória maluca!

Apenas "eu" Luis felipe ! disse...

Nossa veio ta maluco vc foi tentar ajudar o cara, e so pq era um bebado o povo naum dava atençao para ele
isso e o povo generoso brasileiro?!!rsrsrs
é assim msm, se tivesse sido um acidente serio , tivesse sangue e tal o povo taria tudo em volta pra ver!!mas como era um velho bebado eles naum ligam

Slimshit disse...

aew valeu o coments mano

brigadão mesmo

o seu tambem é maneiro

se quizer eu faço um template la proce

ai vc comenta la no meu orkut

http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=13997507696499496828

Ana disse...

Vamos por partes.
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Sífilis pra vocês! Sííí-fí-lis!!!!”
Isso foi foda, original e direto.
Seria simples dizer, vai a merda, as pessoas não imaginam como seja tal ato, por ser uma figura de linguagem.
Mas a sifilis existe, e é nojenta.
Garanto que eles ficaram pensando..kkk
Os exercícios de controle da raiva, me fazem bem também, mas no meu caso eu imagino que a pessoa está caindo num poço, e eu sou a única quem pode salvá-la, então eu fico na "mente" fazendo Fusquinha assim:
Ráááá não te dou a mão, lero lero, não dou" rsrsr(bemmm infantil).
Pois então, quanto aos bebâdos, piedade.
Sempre convivi com isso, voinho trocava botijões de gás por cachaça, e até bebia alcool de posto quando extremamente desesperado.
É injusto julgar por que problema aquela pessoa encheu a cara, meu avô se entregou a bebida, tudo o que ele tinha era pra ela.
E hoje meu tio sofre com o mesmo problema.
Eu ajudei outro dia uma velhinha que caiu do ônibus, e me senti bem.
Vááárias pessoas passavam indiferentes, e tal.
É a vida, uns tem coração, outros tem mas não podem "perder a hora" e usá-los, e assim segue.

Já pensou porque ele havia bebido?
Eu fiquei pensando nisso agora, fiquei realmente pensando.
=/
Um beijo, seu blog é ótimo, e os textos melhores ainda.
Muuuuuaaack.

danyelfreytas disse...

muito bom o blog viu... os textos são um atrativo a parte.vlw


http://petboys.blogspot.com

Regy Angel disse...

é incrivel como as pessoas só olham pro proprio umbigo...
O velho só precisava de ajuda...
Sei la...podia ser o avo de qualquer um de nos...
Se ele esta nesse estado...motivos é o que nao faltam.

mickey disse...

ai cara muito bom o seu blog, vlw, ai continue assim.

vlw


t+

J. disse...

Virge Maria!

Quase um escotero.

Madalena Barranco disse...

Oh, Plinio, sua crônica se repete incontáveis vezes pelos cenários paulistanos... A maioria das pessoas, infelizmente, se aglomera ao redor da desgraça alheia por curiosidade. Mas, se fosse somente esse o motivo ainda seria razoável. Aí eu me pergunto: é a cidade que faz as pessoas assim, ou vice-versa?
Beijos e boa semana para você.

Fernando Thadeu disse...

Estou acostumado com todos os tipos de bêbados aqui onde moro, desde os q bebem e ficam machos, aos q bebem e viram artistas do show do Ton......auhahua
Mas esse seu bebado ai, não estava muito pra dar show....pois o show estava na cabeça dele.....vc já parou pra imaginar o que ele estava pensando na hora????....tipo "se alguem me ajudar eu vou pra casa, ou será q minha carteira tá no bolso ainda?".....auhahua
bebado é foda!!!

Cláudio Apolinário disse...

não sei vc já ouviu falar em um livro que chama "O Declínio do Homem Público" - Richard Sennett. vou colocar depois o link aqui pra ti, dá uma lida na resenha.
hoje em dia as pessoas não se importam ou se importam muito pouco com o próximo! é quase uma selva! cada um por si e Deus ( que já tá cansado )por todos ...
A educação então ... essa já foi pro espaço há muito tempo.
faça um teste: ande pela rua e de bom á alguém e veja se alguem lhe responderá! as pessoas vão olhar pra vc com cara de espanto, pois elas não estão mais acostumadas com esse tipo de atitude, fato que era normal no início do século XX.
mas ... continue assim! ajudando quem precisa: bêbados, prostitutas, mendigos ... não são bichos! são gente!
grande abraço!
se puder dá uma moral lá no meu blog!

http://somarassuntos.blogspot.com/

o link da resenha:

http://www.unb.br/ics/sol/urbanidades/resenhasousa.htm

Letícia Castro disse...

Eu acabei de sair do banheiro... Mas acho que não vou ter que voltar não. hehehe
Plínio, o lance (que me revolta mais que tudo)é que o indignar-se no Brasil é muito mal visto. Quando vc se mostra indignado e responde à altura, passa a ser o vilão e tudo se volta contra você, porque, afinal de contas, pra que ser tão agressivo e mal educado, não é mesmo?
Mas a gente não pode desistir. Ainda que o façamos só por nós mesmos e com a platéia contra. Achei o máximo o que vc fez e manda ver, sempre que achar que deve!

Abraços e sucesso!

Letícia.

cicuta disse...

Da pra rir da para chorar da pra se emocionar Você é ótimo!
Acabei de ler maquiagem e Etiqueta no zoológico
li em voz alta para o luiz escutar e valeu mesmo
Como vc. escreve bem !
Agora vou continuar lendo porque vale a pena ler o que vc. escreve

Cicuta

Lumi disse...

Plinio, achei o texto fantástico. Continua escrevendo. Você tem o dom da narrativa ágil e bem humorada. Ainda vou ver você publicar varios livros. Parabens.
Lumi

Luciana Fátima disse...

Fico indignada com a reação das pessoas que não conseguem ir além do julgamento superficial de um "simples bêbado". Existe um universo tão complexo por trás de um "cachaceiro"... Pena que nem todos tenham sensibilidade suficiente para se imaginarem na pele do sujeito caído (e que vemos todos os dias pelas calçadas de SP). Ninguém sabe o que a vida nos reserva. Como gostaríamos de ser tratados se os papéis se invertessem?!

Belo texto!
LF