quinta-feira, 15 de maio de 2008

Cronologia de um Ébrio Cosmopolita

Pois é, vida corrida tem dessas coisas, a gente fica preguiçoso, começa a assistir Jô Soares, e aí o blog fica parado. Mas valeu a pena. recebi dezenas de e-mails me xingando por causa da última postagem. Sei lá porquê, as pessoas não gostam de dar apelidos pra minha mãezinha nos comentários abertos. E as nove pessoas que votaram na enquete apelando para minha morte cruel me surpreenderam. Afinal, acho que o ódio torna as pessoas discretas. Então, enquanto trabalho em algum texto decente, republico uma crônica antiga. Quem reclamar do tamanho do texto vai escrever "vou deixar de ser um ignorante preguiçoso" 15 bilhões de vezes na lousa do inferno. Com o próprio sangue.
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-Um martíni, mexido, não batido.

A primeira vez que ouvi 007 pedir seu tradicional drink foi em um filme da década de 70, com o sotaque irlandês de Sean Connery. O agente secreto levava seu smoking pra passear em um cassino russo. O que me impressionou na cena, no entanto, foram as longilíneas pernas que trouxeram num andar ritmado a belíssima ruiva, femme fatale bolchevique, junto ao balcão do bar. Ela toma um gole do Martini e ergue a perna, exibindo a cinta-liga negra convidativa como um pote de caramelos pra pegar á vontade. A ligação foi inevitável, eu havia descoberto o maravilhoso mundo do prestígio social etílico, o qual perseguiria por toda a vida.

Pouco tempo depois, sob forçoso pretexto da edificação moral, adentrei o universo pavloviano da primiera comunhão. Entre cochiladas, tediosos sermões e demais abstrações dominicais, adquiri no milagre enólogo de Cristo o alívio permanente para minha consciência e alma peregrinas através do caminho das videiras. Afinal, se o filho do Hômi podia tomar umas, que mal poderia haver nisso?

Já adolescente, não possuindo grandes dons atléticos, dinheiro ou um vídeo-game decente, vi-me acuado, obrigado em nome da coexistência social, a ser, ao menos, inteligente. E foi em meio aos livros que descobri a versão divertida da religião, na figura mitológica de Dionísio, cercado de ávidas bacantes (que numa cabeça púbere são mais ou menos como paquitas bêbadas dançando em cima de uma mesa).


Em seguida veio a arte de Tolouse voando alto nas abssíneas asas da fada verde, e a literatura de Baudelaire e seu Clube dos Haxixeiros; Vinícius de Moraes e seu uísque - o cachorro engarrafado; Kerouac, Ginsberg e os muy locos Beats; e por fim o fino brandy da Geração Perdida, patrono dos etílicos literatos, Hemingway. Nessa fase senti pela primeira vez a triste ressaca da derrota e entrei num ciclo depressivo ao tentar ler Finnegans Wake. Acabei no irlandês Finnegans Pub, sob tratamento intensivo, aonde se reúnem aqueles que amargam a bad trip das ininteligíveis justaposições e aglutinações amálgamas de Joyce. Foi lá, abraçado á tantos Bukowiski’s anônimos, que descobri, entre as mesas de bilhar, a sensualmente trôpega embriaguez swingada de Bob Dylan e Billie Holliday. A epifania suprema veio com Tom Waits, e mais no fim da noite uma paixão platônica por Amy Winehouse.

É claro, nem tudo são flores, a maçã da serpente (cidra, numa versão menos conhecida) acabou com a boa vida do casal primogênito. Sendo assim, pais, amigos, assistentes sociais e vendedores de água de côco e sanduíche natural não pouparam esforços para empreender uma inquisição puritana, brandindo tochas e livros de auto-ajuda embaixo das janelas da Vila Madalena. Ces't la vie, joga pedra na Geni. Por sorte temos nosso valor mercantil assegurado na parnasiana cartilha moral, representados por fidedignos seguidores da bandeira boêmia, como Lula, Bush, Jango, Yeltsin, Churchill, todos engravatados bem sucedidos, para provar até onde pode cambalear um ébrio de valor.

Finalmente venceu o alarme do mundo adulto e fui levado ao esclarecido circo acadêmico. O rito tribal de passagem para o mundo das letras começa com o som de dezenas de máquinas de cabeleireiro chiando sincronizadas, pinturas de guerra e banhos de cerveja, culminando fatidicamente numa cama desconhecida, ao lado de uma bela (ou não!) desconhecida, com um gosto já bastante familiar encarnado na garganta. Seguir-se-ão quatro anos de ritos cumpridos religiosamente todas as sextas-feiras e aulas vagas na companhia de dedicados garimpeiros do conhecimento. Vem então o primeiro estágio, no qual a convivência com editores experientes conduzem aos parcamente iluminados corredores das casas de tolerância nos aniversários dos colegas de escritório, festas de fim de ano e premiações cheirando á Merllot Blanc semi-sec e charutos cubanos contrabandeados pela Ponte da Amizade.

Trinta anos de enebriante serviço, troca-se o paletó por chinelos e camisa abotoada até a metade. Vai-se o computador do escritório, vem o dominó da praça, e o uísque cede lugar aos multicoloridos comprimidos que o SUS não cobre. Antes que se dê conta, os netos correm nus pela casa. Antes que se dê conta, os netos assitirão velhos filmes de 007, e sorverão sua juventude em goles bem servidos, encorpados, aromáticos, suaves, sutis e sedutores. Antes que se dê conta a vida pede a saideira.

Tudo bem, do lado de lá todos transformarão água em vinho. Ou Martini - batido, não mexido, por favor.

Um brinde!




14 comentários:

Amanda Guerra disse...

O alcoolismo nunca me pareceu tão sedutor... rsrsrs

E nós, crianças e adolescentes esquisitos estamos aí. Achei interessante sua opção por ser inteligente, eu estou tentando fazer a mesma... eu até li Manifesto Comunista em Quadrinhos quando tinha uns 12 anos. =P

No mais, esse aqui tem sido um dos espaços mais interessantes que conheci nos últimos tempos...

beijo

HenriqueM disse...

E quanto aos que não assistiram 007, e que não bebem qualquer coisa com alcool?

Ainda tenho dúvidas se do outro lado transformam água em vinho - ou martini - realmente.

O que não sai de minha cabeça é que do jeito que as coisas vão, a solução das coisas no futuro será transformar qualquer coisa em água, e não o contrário.

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Desculpa eu me prender nessa parte água-vinho do texto. É que foi essa parte que me despertou.
O resto do texto ficou complicado para mim, a maioria das coisas que você citou não são do meu conhecimento.
Hora de recolher minha insignificância.

Um abração.


p.s.: Tu usa msn?

Marcelo Fabri disse...

Bem legal essa cronologia etílica. O texto flui leve, feio um vinho verde português.
Recomendarei o texto. Aliás imprimi e já mostrei pra alguns amigos.

Thaíssa Vasconcelos disse...

Um brinde!!!

E como sempre, um texto maravilhosamente bem construído.

Tenho vindo aqui em seu blog, e tenho percebido uma certa ausência, a qual você comenta de início, e é esquisito admitir, mas senti falta dos seus textos de tema simples, objetivos simples, mas construídos de forma complexa.

Você diz, ainda no começo, que não iria "aceitar" comentários ao dizer que o texto é comprido, realmente, parece que as coisas hoje em dia tem uma certa pressa, e poucos se rendem a uns minutos a mais ao ler algo, por isso que muitas vezes, os velhos livros empoeiram nas prateleiras. Bom, voltando ao raciocínio, não é que o seu texto seja comprido, acho que essas não seria reclamações, mas seu texto é denso de certa forma, é um texto que não é para qualquer um, e tem que se ter ao mínino uma certa maturidade literária. Talvez por isso te ache tão mágico, diferente dos perfis dos blogueiros que costumamos ver. PARABÉNS.

Quanto ao texto em si, houveram algumas passagens que me tocaram bastante, que me fizeram pensar, as quais eu me identifiquei:

"Um gosto bastante familiar encarnado na garganta"

"Banhos de cerveja culminando fatidicamente numa cama desconhecida, ao lado de uma bela (ou não!) desconhecida."

Dentre todas essas duas me tocaram bastante, a primeira por uma forte tendência artística (usando essa palavra por falta de outra que expresse perfeitamente o que estou pensando). E a segunda, ilustrando o quão real e próximo de nossa realidade é o seu texto, apesar de estar encoberto de arte, metáforas, beleza.

Parabéns, mesmo!

Fraturas Expostas disse...

O doce sabor de um sedativo para podermos esquecer, por pouco tempo que seja, o gosto ruim que a vida tem as vezes...

parece estranho, mas a minha vida ébria não surgiu por que a vida dói, mas porque a dor fica mais bonita, mais sexy, mais 007.

E assim nós escolhemos viver...já que podemos ver as coisas por diversos ângulos, que tal através de um copo de Jack Daniel's?

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"Banhos de cerveja culminando fatidicamente numa cama desconhecida, ao lado de uma bela (ou não!) desconhecida."
Não existe mulher feia, você é que bebeu pouco...(só pra descontrair)

bjos, tô com saudade.

Letícia Castro disse...

É "007 Contra Moscou", né? Eu não vi este, mas sou chegada em Sir Connery. Fala a verdade, essa inspiração etílica... foi aquele porre no Babel! hehehe Na faculdade, os professores diziam que a nossa sina é morrer aos 50 de cirrose! É a trôpega vocação...
Adorei a associação com o Bond, finesse e malandragem. O Pierce tava aqui faz pouco mais de um mês. Such temptation!!!
Pode republicar mais crônicas antigas, a gente curte! ;)
Vc tem essa capacidade de fazer a gente explodir em uma gargalhada! "Lousa do inferno"!!! Vou plagiar.
Eu tenho que te repassar umas coisas que descobri sobre vinho rosé.
Beijo!
Letícia.
http://babelpontocom.blogspot.com/

danisiinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
danisiinha disse...

retribuo o comentario....
otimo texto....a manipulação da realidade em tempos tão créis , nos soa cada dia mais prazeiroza..!
e eu apesar de assitente social, sugiro que vá ao meu blog em uma postagem mais antiga e procure o texto: danisiinha em líquido , é um delicioso drink , com o qual eu fui homenageada! rsrsrsr
aprecie , vc vai gostar !!

ahhh , e quem disse que a briga entre chanell e kf, foi simples?
nada disso moço, toda hora elas trocam farpas....
e comportada ? eu? rsrsr
quem sabe ?
o album do chico é realmente maravilhosoooo

bjão
e volte sempre...
www.daniilopes.blogspot.com

Letícia disse...

Muito obrigada pelo elogio ao meu blog. Um dia eu serei uma boa cronista. Aos poucos eu chego lá...com doses homeopáticas, literalmente. ;P
Por enquanto é aquilo que vc viu.
Ah, e valeu por ter adicionado aos "favoritos".

Ótimo texto. Eu amo vinho, apesar de andar traindo esse amor com a vodka. Enfim...

Bjão!!!

HenriqueM disse...

Está adicionado no msn, quando um "Henriquezoviske" aparecer lá pedindo para ser adicionado, sou eu. :)

É, o lance do MasterCard ficou pobre mesmo. É que eles pedem apenas algumas linhas, uma pequena coisa, pois aquile site está reunindo idéias para que a melhor vire um comercial.
Daí me inscrevi apenas por inscrever, e nem me empenhei na hora de escrever aquelas linhas. :)

Haha, que bom então que eu não sou o único a não entender as referências do seu texto. ;9

Obrigado pelos elogios ao meu blog.

Um grande abraço.

Renata Cordeiro disse...

No mínimo, visceral. Entendi o que quis dizer.
Visite o meu blog:
wwwrenatacordeiro.blogspot.com/
não há ponto depois de www
Conto com a sua visita,
Renata Cordeiro

Madalena Barranco disse...

Olá Plínio,
Seu estilo de certa forma é curioso... Você conta a vida através de um copo ou quiçá uma taça, e à medida que mistura as idéias com ou sem gelo, transforma letras em palavras interessantes. Gostei!
Abraços.

o'Ricci disse...

Minha inconstância virtual também é notória! E, pelo visto, estamos adotando a mesma tática de publicar textos antigos... isso é foda, quanto mais tempo vagal se tem, mais se quer. E mais preguiça de se fazer o útil também =p

E digo mais, a única coisa que me ajudou a terminar o maldito Finnegan's Wake foram doses cavalares de Guiness. Mesmo porque eu acabava virando mais do que uma página por vez... Eis a verdadeira beleza de JJ, você pode pular quantas páginas quiser e ainda assim o texto mantém seu caráter essencial: a incompreensibilidade.

luiz scalercio disse...

cara prbns seu blog gostei muito .
nt10