
Onde há fumaça, houve fogo uma vez. Agora há apenas cinzas.
Cinzas se acumulam há tempos na minha garganta. Cinzas soltas em teus beijos, sufocaram-me. Cinzas misturadas a saliva, amargaram o vinho que tomava pra me entorpecer e não pensar nas suas cinzas imundas. Não pensar nos beijos cinzentos.
Ninguém veio ao enterro de nossa última quimera. Somente a solidão, essa pantera, nos acompanhou nos últimos dias.
A mão que afagava estava carregada de pedras. A boca que beijou escarrava bile escura, segregada em nome do orgulho.
Do outro lado da janela do trem, vi teus olhos nublados, antes tão cristalinos, me dizerem adeus. Eles sabiam que não nos veríamos mais. Mesmo que eu te dissesse que tudo ficaria bem, que te abraçasse e segurasse tuas mãos, não podia mentir com os olhos, não pra você. Talvez por isso o vagão tenha demorado tanto a sair. O maquinista, invadido pela angústia que pulsava cardíaca, foi tomado súbito por aquela letargia que arrastava nossos silêncios na cama, o café mudo, as madrugadas insones separados por livros sem interesse, apenas pra não precisarmos conversar. Ou talvez aquela eternidade que pesou sobre nós, separados para sempre por uma porta de metal e vidro, fossem apenas segundos para o resto do mundo, externos à inexorável eternidade que atesta a morte de uma paixão.
Não houve contato físico no último abraço, pois não havia pele sobre a carne para sentir-se tocar. Sobre os ossos, vestíamos apenas a dúvida do amanhã, e a culpa pelo inegável alívio do fim. Não havia terminações nervosas capazes de captar o corpo que já foi refúgio, agora repúdio. Não havia espaço na alma para lembrar do que já foi amor, hoje rancor.
O som das rodas se movendo alfinetou o devaneio e, quando os olhos tentaram um último adeus, o apelo se perdeu no vácuo. Você olhava para o chão. Entendi o que a sua ausência dizia. Agradeci sua ausência.
A casa ficou silenciosa. Regozijei-me de teu silêncio, da companhia sublime da tua ausência. Tua ausência abraçou-me com longas e macias asas. Contei meus pensamentos para tua ausência, e pude ouvir meus pensamentos, ecos do teu silêncio, pela primeira vez em meses. Deitei a cabeça no colo de tua ausência, e sonhei que valsava sozinho ao som de meu riso largo. Apaixonei-me perdidamente por tua ausência.
Dormi no chão para não me cortar nas lâminas que plantamos sobre a cama. Decidi que não sangraria novamente, nem sangue, nem lágrimas, nem sonhos. Hoje o colchão é lápide, e o piso já não é frio como os corpos que largávamos sobre os lençóis, nem duros como as palavras que inúteis que proferimos.
A peçonha que injetamos nas veias corroeu nossa sanidade, e o delírio que fazia flutuar sugou nossa força, tal qual Anteu, que teve os ossos esmagados ao tirar os pés do solo.
Nenhuma noite é eterna, e voar com asas de cera sob o Sol trouxe a queda de Ícaro para o nosso quarto.
Cada parte sua que tirava do armário era uma lembrança que vomitava. Cada peça que depositava na tua mala era uma mentira que enojei. As mentiras que correram vermelhas ainda mancham a parede que você pintou. Cicatrizes de batalha para ostentar. Eu só te pedi a verdade.
Esta noite, meu amor, não há lua no céu. Os gatos não sorriem no escuro. Na nossa noite sem lua habitam somente os corvos, cropófagos de memórias, a grasnar a sentença de Poe. Never more, meu amor, never more.
Cinzas se acumulam há tempos na minha garganta. Cinzas soltas em teus beijos, sufocaram-me. Cinzas misturadas a saliva, amargaram o vinho que tomava pra me entorpecer e não pensar nas suas cinzas imundas. Não pensar nos beijos cinzentos.
Ninguém veio ao enterro de nossa última quimera. Somente a solidão, essa pantera, nos acompanhou nos últimos dias.
A mão que afagava estava carregada de pedras. A boca que beijou escarrava bile escura, segregada em nome do orgulho.
Do outro lado da janela do trem, vi teus olhos nublados, antes tão cristalinos, me dizerem adeus. Eles sabiam que não nos veríamos mais. Mesmo que eu te dissesse que tudo ficaria bem, que te abraçasse e segurasse tuas mãos, não podia mentir com os olhos, não pra você. Talvez por isso o vagão tenha demorado tanto a sair. O maquinista, invadido pela angústia que pulsava cardíaca, foi tomado súbito por aquela letargia que arrastava nossos silêncios na cama, o café mudo, as madrugadas insones separados por livros sem interesse, apenas pra não precisarmos conversar. Ou talvez aquela eternidade que pesou sobre nós, separados para sempre por uma porta de metal e vidro, fossem apenas segundos para o resto do mundo, externos à inexorável eternidade que atesta a morte de uma paixão.
Não houve contato físico no último abraço, pois não havia pele sobre a carne para sentir-se tocar. Sobre os ossos, vestíamos apenas a dúvida do amanhã, e a culpa pelo inegável alívio do fim. Não havia terminações nervosas capazes de captar o corpo que já foi refúgio, agora repúdio. Não havia espaço na alma para lembrar do que já foi amor, hoje rancor.O som das rodas se movendo alfinetou o devaneio e, quando os olhos tentaram um último adeus, o apelo se perdeu no vácuo. Você olhava para o chão. Entendi o que a sua ausência dizia. Agradeci sua ausência.
A casa ficou silenciosa. Regozijei-me de teu silêncio, da companhia sublime da tua ausência. Tua ausência abraçou-me com longas e macias asas. Contei meus pensamentos para tua ausência, e pude ouvir meus pensamentos, ecos do teu silêncio, pela primeira vez em meses. Deitei a cabeça no colo de tua ausência, e sonhei que valsava sozinho ao som de meu riso largo. Apaixonei-me perdidamente por tua ausência.
Dormi no chão para não me cortar nas lâminas que plantamos sobre a cama. Decidi que não sangraria novamente, nem sangue, nem lágrimas, nem sonhos. Hoje o colchão é lápide, e o piso já não é frio como os corpos que largávamos sobre os lençóis, nem duros como as palavras que inúteis que proferimos.A peçonha que injetamos nas veias corroeu nossa sanidade, e o delírio que fazia flutuar sugou nossa força, tal qual Anteu, que teve os ossos esmagados ao tirar os pés do solo.
Nenhuma noite é eterna, e voar com asas de cera sob o Sol trouxe a queda de Ícaro para o nosso quarto.
Cada parte sua que tirava do armário era uma lembrança que vomitava. Cada peça que depositava na tua mala era uma mentira que enojei. As mentiras que correram vermelhas ainda mancham a parede que você pintou. Cicatrizes de batalha para ostentar. Eu só te pedi a verdade.Esta noite, meu amor, não há lua no céu. Os gatos não sorriem no escuro. Na nossa noite sem lua habitam somente os corvos, cropófagos de memórias, a grasnar a sentença de Poe. Never more, meu amor, never more.


22 comentários:
Primeiramente, peço desculpas pelo grande atraso em responder o comentário no blog. Mas, como lido no texto sobre filosofia, o tempo livre não tem sido um bom amigo ultimamente.
Poucas vezes me senti tão bem ao ler um comentário no blog. Em sua esmagadora maioria, chegam apenas "legal o texto" e afins. Nada como se deparar com uma boa crítica...
Quando à citação a Epicuro, ela foi extraída do livro de Ferry. Até onde sei, Epicuro tem sua própria escola, o Epicurismo, e não faz parte da escola dos cínicos. Mas não sou nenhum expert em filosofia, portanto, posso estar enganado.
Obrigado por adicionar meu blog nessa lista. Eu teria que fazê-lo como contrapartida, mas isso é só um detalhe agora, dada qualidade do seu blog, que merece uma indicação gratuita.
O texto é simplesmente fantástico. Embora não tenha captado os pormenores, acredito que peguei sua essência. A forma merece aplausos e só não me arrisco a comentar o conteúdo pois não gosto de especular em escritos como esse, subjetivos.
Não sou um proundo conhecedor de poesias, pelo contrário... mas essa é conhecida. The Raven, certo?
That's it.
Abraços!
O pior (ou melhor, ainda não sei) é que as cinzas não simbolizam o fim...uma Fênix pode surgir dessas cinzas e estaremos condenados á viver de cinzas e Fênix para sempre. Mas, por enquanto, no more.
Abraço enorme!!!
Lindo o modo que tu começa o texto. Mas, me diga? De onde mesmo renascem as fênix?
Sobre o corvo do Poe... Ele me visitou certa vez. Eu, já sabendo da resposta que m daria, perguntei "Até quando sofrerei?".
Mas não... Aquele não era o corvo do Poe, ao contrário do que devia, ele gritou "sempre mais"...
CARA MUITO BONITO E INTERESSANTE SEU BLOG......
SE DER VISITE O MEU
Mais de 80 mil visitas!!!
http://stefanelli2000.blogspot.com/
Faça parte da comunidade do blog Stefanelli2000!!!
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=32856869
"Never more, meu amor, never more..."
Nunca é uma palavra traidora. Dizemos "nunca mais faço isso!" e olha lá, estamos repetindo e agindo da mesma maneira. Então essas cinzas podem ser um presságio para o ressurgimento dessa fênix, citada pelo nosso companheiros aqui...
Belo texto!
Abraço
Esse ainda é um repost, ou é novinho em folha?
Como sempre, dando um toque especial a tudo. Me senti angustiada lendo seu texto, mas acho que a idéia era essa, não?
Beijos
Quoth the raven...
Eu estava prestes a montar uma banquinha de apostas pra ver em que momento apareceria algum tipo de comentário nos moldes de "só se dá valor quando perde", partindo de uma adolescente tresloucada. Mas, como minha aposta inicial era 3, melhor nem propor.
Textos que expressam esse misto de acidez e, por que não, uma semi-indiferença (joguem o rancor aqui, empiristas malditos), sempre são mais interessantes (ou, pelo menos, mais bem elaborados) do que os meramente sarcásticos.
No mais, ficou rasgado o suficiente para fazer jus às publicações anteriores (obviamente, afinal, todo mundo segue um estilo - momento comentário estúpido e desnecessário).
Mas ainda posso propor uma banca sobre o primeiro imbecil que vai aparecer dizendo "texto grande demais"!
Abraço.
olá...que texto é esse amigo, muito bonito e forte!!
A foto se queimando ficou muito bom, pelo que entendi é um texto sobre perda..não é?
você escreve muito bem...quem dera eu escrever assim, como você escreve....parabéns!!
ola, obrigado por elogiar meu blog :D
e caso voce copie as riquissimas imagens do meu blog ^^
ponha os créditos ok maninhu? :)
ME DESCULPE SÓ QUE NA MINHA CABEÇA FUTIL E DESEQUILIBRADA NÃO CONSEGUI PENSAR EM MAIS NADA PRA COMENTAR EM UM BLOG COM NOME DE DROGA,,, E QUE AS MATERIAS SÃO DE CERTO MODOS IRRACIONAIS E SEM SENTIDO,,PREFIRO MINHA POUCAS MAS REAIS 80 MIL VISITAS....OBRIGADO!
Adorei a primera parte, culminando nesses versos de Augusto dos Anjos, muito bom. Como já foi dito por alguns, renasça das cinzas. Não viva uma desilusão por toda vida.
Compreendo... eu tenho o brasão "nemo me impune lacessit" tatuado nas costas e as pessoas sempre fazem associações estapafúrdias com a simbologia da tatuagem. Minha ex-mulher tinha uma fênix tatuada e invocou diabolicamente com uma semiologia absurda sobre o leão e o maldito passaralho. ¬¬
Mas, como diria aquele pedaço de sabedoria popular: "a característica do homem é a superação" - ao que meu pai acresceu "à própria imbecilidade".
Woody Allen realmente bota pra foder. Ele e seu homônimo de Toy Story. Ambos ensinaram lições de vida preciosíssimas, se não a mim, pelo menos para as crianças daqui de casa.
O desafio agora é ler Fausto, no original. Daqui a uns 4 anos. =p
Concordo quando dizem que nunca é uma palavras traidora e tambem o fato de dizer que cinzas eh o fim...fato qu não eh...as vezes nos pensamos que chegamos no limite, nas cinzas e ai eh qdo nos tornamos fenix...
http://osliteratas.blogspot.com
http://solteirasfc.blogspot.com
Enterre suas cinzas na natureza, na curva do rio, não deixe vestígios.
Essa visão da Fênix só serve para quem não consegue se desprender do passado.
Mas não nós.
Deixe o que morreu para trás.
É de vida que precisamos, vida nova, vestida de azul e amarelo.
Deixe o preto e o vermelho para os fúnebres, para os que vestem luto como opção, por temerem a vida.
Muito bom. Gostei. Talvez eu publique algo no meu blog com o mesmo tema, despedida. Mas juro que não é cópia, ou falta de originalidade. É só coincidência. Talvez demore um pouco. Mas sei que você irá ler.
Abraço
Marcelo
Plinião, esse tá foda! Você sabe que eu não diria se não estivesse. Cada palavra medida - cada palavra a palavra para representar o que se passava, o que se passou, o que se passa.
Meu, fora Ícaro e Anteu, até o Poe entrou na história - incrível como tudo é inferência e a inferência de tudo, parte da vida.
Enfim, esse não é o comentário que esse texto merece. Por isso que voltarei para fazer um outro comentário - porque esse texto tá foda e eu não posso jamais admitir que essas sejam as únicas palavras minhas acerca de uma composição como essa.
(já abandonou as férias, seu prostituto?)
Abração!
Calebe Morais
Aline, morena, só você me entende nesse mundo!
O passado fica pra trás, mas deixa vestígios. Alguns queimamos, outros cultivamos para que tome nova forma. Como uma flor que brota no meio do asfalto.
Referências à parte, é impressionante esse efeito imagético que vc consegue dar ao texto. Eu, pelo menos, vou seguindo cada linha visualizando tudo, mas é tb um convite aos sentidos e, no final, as cinzas ficaram impregnadas no paladar e no olfato (vaya autosugerencia!).
Sobre o conteúdo, muito pessoal,né? Do pouco que tenho aprendido é que o que termina, termina e vai sendo diluído com o tempo. E, ainda que volte, já se transforma em outro, nunca mais é o mesmo. Está dentro de nós a habilidade de deixar que se vá de uma vez, mesmo cercados pelas lembranças desse então.
Beijo procê!
Letícia.
http://babelpontocom.blogspot.com
"Não houve contato físico no último abraço, pois não havia pele sobre a carne para sentir-se tocar. Sobre os ossos, vestíamos apenas a dúvida do amanhã, e a culpa pelo inegável alívio do fim. Não havia terminações nervosas capazes de captar o corpo que já foi refúgio, agora repúdio. Não havia espaço na alma para lembrar do que já foi amor, hoje rancor."
como comentar? algo tão inyenso, tão humano e profano...... nossa!!!!!!
o rancor que vem do amor ! vísceras emocionais que expelimos na despedida!!!
adorei .. muito!
www.daniilopes.blogspot.com
"o piso já não é frio como os corpos que largávamos sobre os lençóis".
Como alguém já comentu anteriormente, seus textos tem um caráter subjetivo muito forte, metáforas, componentes bem marcantes do seu eu, de sua experiência (seja com as letras, com suas percepções e sensações do mundo), por isso, cada um de nós podems dar alguns sentidos diferentes para seus textos. nesse eu vejo um fim, um fim aliviado parece que se contava os dias para esse fim, não se contavam mais os motivos para ele, houve fogo um dia, que aos poucos ficou 'só' fumaça, que não se sabe porque transformaram-se em cinzas. E os corpos caiam frios sobre os lençóis. Em contrapartida, vejo que esse fim deixou ainda um pouquinho de fumaça, que transformou-se em alguns momentos em fogo, curtos momentos de fogo, mas intensos. Coisas que acontecem em "fins" seja ele qual for.
Seu texto transforma as situações comuns da vida, "impessoais", em uma verdadeira obra de arte. Minuscioso nos detalhes (ou em alguns detalhes bem significantes), mechendo na ferida que muitos só fazem passar por cima. Maravilhoso!!!
Nossa Plínio,
muito expressivo!
Conseguiu mexer com os meus sentidos. Por vários momentos do texto senti a dor e tristeza do fim.Pelas palavras, pela angústia e pela pena do que se transformou...
A idéia da foto também é forte e deu mais expressão e força por ter colocado entre o texto, fora a imagem.
Beijoss
É, ...sentimentos.
Sempre gostei muito de falar sobre. Hj vejo que vc está passando por um momento na qual eu já passei. Vc mesmo sabe q tenho alguns textos sobre o assunto, mas como sempre vc põe aquele ar sombrio q eu acho muito loko.
Sou peão agora mas não parei de escrever. auhahua
Abraço Plínio!!!
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