Introdução prolixa e desnecessária:
O povo tem reclamado que estou demorando pra atualizar. Justíssimo. Explico, então: estou em férias do trabalho, e estou sem conexão em casa. O técnico da NET deveria ter vindo me tirar da Sibéria há quinze dias, mas Skavurska! Somado á isso, o tempo pra escrever tem andado escasso, visto que gasto boa parte do dia nas atividades de levar garrafas vazias e trazer garrafas cheias da venda do Seu Batista. Mas prometo que á partir de semana que vêm fica mais dinâmico. Afinal, volto pro escritório, e preciso de algo pra ocupar as oito horas que gasto por lá. A propósito, o texto é enorme, assim como esta introdução prolixa e desnecessária, mas não tem palavras difíceis, referências intelectualóides ou um monte de fotos, então por favor, não se assutem, dá pra ler até o final.
Despertos

1ª noite
Na primeira noite, demorei á perceber. Tive um pesadelo em que um coração gigante batia desesperado, preso em uma gaiola, e eu estava preso dentro dele. Tum, Tum, Tum, tumtumtumtumtum!
Acordei rapidamente, mas ainda podia ouvi-lo, perdidos em algum lugar na fronteira de meu subconsciente. Liguei a televisão de modo a abafar os sons de minha cabeça e voltei á dormir.
2ª Noite
Na noite seguinte fui me deitar tarde. O escuro do quarto fechado trouxe de volta o barulho, mais alto desta vez. Pude distinguir um padrão de tempo regular entre um disparo e outro, mas diferente da noite anterior. Parecia-se mais com um tipo de despertador, desses coloridos que se ficam tocando ininterruptamente nos camelôs, só pra irritar os transeuntes. Estranhei bastante, uma vez que não havia ninguém no apartamento ao lado, mas num prédio antigo de muitos kitchnetes é difícil dizer se o som vem de baixo, de cima, de fora ou da sua cabeça. Mais seguro de minha sanidade, bastou pequena pressão da cabeça contra o travesseiro para que encontrasse desmaiasse.
Amanheceu, café e gravata apressados á caminho do safári financeiro. No elevador a dona Sônia do 314 carrega um pesado par de olheiras que fariam Bella Lugosi corar de inveja.
- Maldito relógio, esse do Seu Agenor. Não me deixa dormir direito há três dias!
- Sério? Nem ouvi.
Olhar de canto, lábio inferior torcido, sobrancelha arqueada, mãos justapostas no baixo ventre. Ela acha que eu sou alcoólatra, vagabundo e provavelmente petista. Petista, imagine! Em todo caso, o apartamento do seu Agenor fica ao lado da senhora da ofídica simpatia, na extremidade oposta do corredor,o que tornaria muito improvável estarmos eu e D. Sônia unidos pelo mesmo carrasco noturno, mas só fui pensar nisso dalí há algumas horas. Na hora, só conseguia me concentrar na imagem de D. Sônia explodindo em fogo e enxofre, deixando no seu lugar a morena do comercial de cerveja. Cara, eu adoraria uma cerveja.
3ª Noite
Era sexta feira, e passei a noite em claro. Comprei uma garrafa de vodka, pra acompanhar devidamente o Dostoievsky que me propus ler todas as noites de sexta feira dos últimos dois meses, desde que Mariana me abandonou. A cretina saiu daqui dizendo que ia voltar pro Rio Grande do Sul pra estudar, que eu não ligava pra ela e que sonhava com algo mais do que um apartamento de 25x20m. Disse que ela me amava, mas que eu não tinha nenhum amor próprio. Besteira! Sei muito bem que ela saiu porque estava tendo um caso com aquele personal-trainner. Ou com o vizinho que ouvia música clássica, aquele cretino decrépito ledor de poesia melosa. Ou com qualquer outro, não sei quem, mas sei que foi isso.
Coloquei minha bermuda favorita, abri a vodka e pousei o livro sobre o sofá.Infelizmente para o velho Fiódor, o TeleCine passaria uma maratona de Sylvester Stallone. O russo já estava morto há sei lá quanto tempo, podia esperar outra sexta feira. Lá pelas três da manhã, levantei pra pegar algumas cervejas na geladeira e notei o estranho silêncio. Nada de despertador. Imaginei que o cretino do sono pesado tivesse se tocado e desligado a máquina infernal.
Seis horas da manhã de sábado, a maratona televisiva acabou com Rocky III. Odeio esse filme, decidi dormir um pouco. Deitei, apaguei as luzes, fechei os olhos e NÃO! O som veio de novo, mais alto, mais forte, mais rápido dessa vez. Podia sentir meu cérebro se rasgando por dentro, cada fibra neural se partindo, estalando. Sentia as paredes do meu crânio se dilatando com o espaço ocupado pelo som. Levantei, mas caí de joelhos em seguida. Acordei no final da tarde, largado no carpete. Como era possível?
Agora tinha certeza de estar louco. Saí pra respirar ar puro. Sentei-me no banco do jardim e tirei um cigarro do bolso, mas não tinha isqueiro. Uma chama se estendeu ao final de um pulso, cujo braço terminava no simpático Seu Agenor. Acendi o cigarro e balbuciei qualquer coisa sem sentido, que ele parece ter entendido melhor do que eu mesmo.
- Que noite, hein rapaz! Dá pra ver que nem pregou os olhos. Também pudera! Com essa campainha tocando a noite toda!
- A noite toda?
- Ué, você não ouviu? Acho que era uma dessas campainhas de forno. Você não deve ter ouvido, seu apartamento fica do outro lado do corredor. Era uma campainha alta, horrível! Parecia vir do apartamento da Sônia, aquela bruxa. Começou exatamente ás nove e quinze. Sei disso porque ás nove da noite eu tomo os meus remédios e me deito. Eles me derrubam. Sabe como é, coisa de velho.
Agora ferrou de vez! Sei que eu não tô louco, o velho ouviu também. Só que tenho certeza de que não eram nove da noite quando eu deitei.E ate as seis da matina, tenho certeza de que nem uma porra de um pássaro piou na rua,quanto mais campainha de forno. Pelo menos sobre uma coisa tenho certeza: a Dona Sônia é mesmo uma bruxa.
4ª Noite
Resolvi me armar pra valer. Nada de álcool hoje, não pra esse cara aqui. Eu não tô louco, tenho certeza, mas só pra garantir, fiz uma jarra enorme de café extra-forte. Claro, nunca acreditei nessa baboseira de cafeína, então resolvi cair no pó, só pra garantir. Cheirei uma carreirinha e deixei outra pra mais tarde. Abri o Dostoievsky, li o primeiro capítulo. Cansei e recorri á velha caixa de filmes de sacanagem que mantenho desde a adolescência, motivo de muitas brigas e algumas noites mais animadas com Mariana. Estava ligadão e, pela primeira vez em quinze anos, prestei atenção nas falas e no enredo dos filmes. Entendi finalmente o que Mãe West quis dizer quando declarou que os filmes pornôs lhe faziam querer transar nos primeiros cinco minutos e davam vontade de nunca mais fazer sexo nos dez minutos seguintes.
Pela manhã, nada de campainha, apito, buzina de caminhão. A madrugada mais silenciosa de toda a minha vida.
No elevador, A bruxa do 314 parecia um zumbi, Quando me viu, apontou um dedo trêmulo na minha direção.
- É você! Só pode ser você!
- Opa opa, minha tia! Que isso, sou eu o quê?
- É você que põe aquele barulho infernal a noite toda, só pra mexer com os nervos dos pobres velhos! Eu perguntei pra todo mundo do andar, ninguém dormiu por causa da sua campainha!
-Do quê que a senhora ta falando? Não teve campainha nenhuma essa noite! Eu passei a noite em claro, não ouvi nada!
- Mentiroso! Moleque mentiroso! Eu me revirei a noite toda com essa porcaria, parecia que estava dentro da minha cabeça.
- Ah, Dona Sônia, dá um tempo, vá!
Saí do elevador apressando o passo. Aquela louca foi falar com o porteiro. Dei uma volta no quarteirão, comprei pão e fui falar com o Severino.
- E aí, compadre, tudo bem? Vi a velha falando contigo, sei que ela vai reclamar com o síndico, mas já adianto que eu não tenho nada a ver com aquela porra de despertador.
- Eu sei, seu Tadeu. Falei pra ela que não podia ser, porque eu também ouvi, e durmo lá no fundo, aqui no térreo. Não dava pra vir da sua casa.
Mas que merda! Como é que o Severino ouviu também se eu não ou i nada? E como ele ouviu do apartamento dele? Ah, essa noite eu vou ficar mais atento.
5ª noite
Chega, nada de pornô essa noite. Cheirei outra carreirinha, tomei um energético e esperei. E esperei. E esperei. Assisti o ponteiro do relógio corre a noite toda. Lá pelas quatro da manhã o ponteiro mudou de cor, e quando o ponteiro maior marcou vinte minutos ele rodopiou e derreteu. Eu tô normal. Silêncio a noite toda.
6ª Noite
Três noites sem dormir, três noites de silêncio. Eu sou Dostoievsky, escrevi Reinações de narizinho e fiz um filme pornô com o Stallone e a Dona Sônia.
7ª Noite
Minha perna está maior. Tenho certeza.
Toc, toc toc. Não! ELE VOLTOU!
Parei de gritar quando percebi que estavam batendo na porta. É o Seu Agenor, e atrás dele está metade do prédio, de pijama. Parece que todo mundo está sem dormir há algumas noites.
-E aí, meu chapa! É uma festa? EU tô pronto pra balada!
- Calaboca moleque! É você! Sai da frente que eu vou quebrar esse despertador maldito!
Depois de o velho revirar meu apartamento (nem ligou pra coca em cima da mesa e pras garrafas no chão, mas se interessou por um DVD da Sylvia Saint), me explicou a situação. O velho falou com todos os moradores do prédio. Eu sabia que não tinha ouvido nada nas últimas três noites, mas todo mundo disse que o som não parava a noite toda. A filha da velha do 210 estava internada, com surto de histeria.
8ª Noite
Estamos no apartamento do Seu Agenor, nosso líder na crise. Todos nós tomamos muito café, e Dona Sônia cheirou comigo e o Severino. Eu sou o Pica-Pau Amarelo e o síndico é a Emília. Dona Sônia disse que conversou com Jesus, mas ele se recusa a cortar o cabelo.
A mulher do 210 caiu no sono e começou a se debater, gritando com as mãos nos ouvidos. Levantou gritando e tentou se atirar da janela, mas explicamos que estávamos no terceiro andar, e ela não ia conseguir mais do que quebrar as pernas. Ela não entendeu. Está completamente surda.
9ª Noite
Seu Agenor surtou. Pegou um machado e decidiu invadir todos os apartamentos. Saiu quebrando todas as portas, mesmo que tentássemos abri-las antes com as chaves.
- Tá contente, velho? Não tem som nenhum na casa de ninguém! Quero ver agora quem vai pagar isso.
- Falta o apartamento do Antunes.
- O Antunes se mudou. Não tem ninguém lá, eu mesmo encontrei ele na portaria de mala e cuia.
- Eu vou entrar! Sai da frente que eu vou entrar!
Não teve santo que segurasse, o velho tava emputecido. Quebrou a porta como se fosse de isopor. Seu Agenor entrou sozinho e caiu pasmo. Ouvi o grito de Doan Sõnia, e só depois vi pela buraco da porta, em cima da mesa, o corpo do Antunes. Os médicos disseram que ele teve um ataque cardíaco. O telefone estava preso na mão enrijecida. Ele tentou ligar pra ambulância, mas a ligação não foi completada. Ainda dava pra ouvir, bem baixinho, o som da campainha ocupada. Tum, Tum, Tum, tum...


5 comentários:
Caralho, que foda, hein?
que a poesia vá para o inferno se no lugar venha uns textos tão intrigantes como este.
adorei.
This is madness!
Bem que meu pai disse que a violência gratuita sempre abre todas as portas. Literalmente.
Pois bem, antes de mais nada gostaria de informar que foi indicado para receber dois selos. Para maiores informações, conferir:
http://dasideiasdecaioruda.blogspot.com/2008/06/selos.html
Se faz questão ou não de recebê-los, fica a seu critério. Passei por questões técnicas mesmo. Mas a indicação não foi puro acaso.
E sobre esse oceano de letras, passo pra comentar depois, com calma.
Tadeu, Tadeu...que loucura! Adoro esses textos inspirados em drogas!
Melhor ainda quando todos desbundam de uma hora pra outra. Machados, D.Sônia cheirando e dando pro Stallone...ótimo! Pouco me importa a intriga do barulho, sem querer desmerecer o mistério, por favor!
Abraço
Incrível trama, como sempre.
Não consegui tirar os olhos da tela até o último ponto final. Concluí que até os mortos podem influenciar nossas vidas...hahahaha.
Bjão!!!
:)
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