Já devia ter passado da meia noite, visto a ausência de pessoas na estação Paraíso do metrô, normalmente abarrotada de pernas e rostos apressados em outros horários. Talvez motivado pelos dois Rabos-de-galo que havia tomado minutos antes, talvez pela ausência de seguranças na plataforma, resolvi saborear a pequena transgressão de acender um cigarro olhando pra os trilhos. Esse é o tipo de coisa que sempre me motiva, pequenos gestos inúteis e infantis que mascaramos como manifestação de contestação ao sistema, como aquela vontade de correr pelado na Avenida Paulista, ou fazer xixi de cima dos viadutos, ou ainda aquela compulsão incontrolável de enfiar o dedo no bolo de aniversário do seu chefe, sabe? Pequenos detalhes que fazem a vida valer a pena e dão vontade de rir sozinho, sabendo-se um idiota feliz e realizado.Apreciava meu pequeno delito, quando um cartaz me arrancou violentamente o torpor imbecil. Uma propaganda enorme anunciava o lançamento da biografia de ninguém menos que Paulo Coelho, pelas competentes mãos de Fernando Morais. Sim, o maior biógrafo do país, o autor de “O Anjo Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues”, devia estar apertado de grana e resolveu tirar a barriga da miséria com o Harry Potter grisalho.
Até aí tudo bem, afinal, Paulo Coelho já virou ate nome de rua em Santiago de Compostela, como agradecimento pelo aumento significativo de turistas que a cidade passou a receber depois do lançamento de “O Diário de um Mago”. Se Morais quis escrever seiscentas e trinta e duas páginas sobre o ex-hippie que plagiou uma crônica do Cony pra conseguir o primeiro emprego em um jornal, problema dele. O que me chamou a atenção não foi o livro, ainda mais em um país em que o 29º livro mais lido pelo povo, atrás somente da Bíblia, de uma porrada de livros evangélicos e de duas obras obrigatórias pra USP, é a biografia do estelionatário Universal Edir Macedo. O que me devolveu a sobriedade como um balde d’água com Epocler foi o poder criativo dos publicitários da Editora Planeta, incapazes de pensar no sentido de palavras simples.
O enorme quadrado lilás definia, logo abaixo de “A Biografia que o Brasil Esperava”, a obra sobre a vida do Pernalonga Místico com três simples adjetivos,: “Inacreditável, Fantástico e Extraordinário”. Foi nessa hora que me ocorreu que, se eu fosse Paulo Coelho, largaria o cajado, colocaria as duas mãos no chapéu pontudo e exclamaria: “Fodeu!” 
Biografia, segundo o Aurélio em cima da minha mesa, é a descrição da vida de uma pessoa. Descrição REAL, diga-se de passagem.
Pois bem, “Incrível”, também segundo o Aurélião, é algo inacreditável, difícil de ser verdade. Ficção pode ser incrível, biografias não, elas têm que ser, justamente, verdadeiras, confiáveis, CRÍVEIS, catso! Sendo assim, a propaganda me diz “Bixo, eu não ponho fé em uma linha dessa josta”.
Tá, daí você diz “Pô, Zúnica, deixa de ser chato, isso é coisa que passa”. Tá bom, errar é humano, mas persistir é burrice.
Diz novamente o Aurélio: “Fantástico – que só existe na fantasia; imaginário; incrível; que só existe na imaginação”. E lá vamos nós de novo! Ta certo, o mezzo místico mezzo charlatão só funciona com muita imaginação – pra não falar de boa vontade -, mas a vida dele não! Outro termo contraproducente em uma biografia. Além de que usar na mesma sentença as palavras Incrível e Fantástico estende a cagada á redundância, já que elas tem o mesmo significado.
Aí, de novo: “Porra, Plínio, deixa os caras em paz, isso é normal”. Tá bom, errar é humano, persistir é burrice, mas a persistência na burrice é imperdoável, corinthiana e petista, motivo que levou meu pai a fazer uma vasectomia depois do segundo filho. Mas a agência de publicidade do Coelhão é brasileira e não desiste nunca!
Novamente ta lá no pai-dos-burros: “Extraordinário: fora do ordinário; que não é conforme à ordem; estranho; raro”. Aí você até consegue extrair algo de positivo, mas só se comparado á outras vidas. Mas a biografia não é estudo comparativo, é apresentação de caso individual. Francamente, a vida é necessariamente ordinária, independente do sucesso dos Best-sellers de auto ajuda. É ordinal, visto que ele nasceu, cresceu, se multiplicou, ficou calvo e vai morrer (logo, espero). E não é nada extraordinária dentro do âmbito de qualquer escritor de obras de alguma utilidade que não seja calçar a mesa de centro da sala, ou de qualquer escritor (rárá, escritor...!), artista (rárárá!) ou intelectual (RÁRÁRÁ) engajado (MUITO RÁRÁRÁ!) que tenha vivido um período de ditadura. Mas aí beleza, dá pra tirar algo de proveitoso do adjetivo infeliz. Pelo menos coisa mais proveitosa do que dos infelizes livros do discípulo de Aleister Crowley.
Aos leitores de Paulo Coelho, nada pessoal, vocês podem chorar assistindo Malhação, rir horrores com o Zorra Total ou fumar orégano achando que é maconha, que cada um cuida da sua vida. Já me deparei com amigas que leram todos os livros do Mago-de-(boc)Óz tupiniquim (todos? Ué, sempre achei que era o mesmo livro com títulos diferentes...) e a-do-ra-ram. São, geralmente, os mesmos fãs ardorosos que defendem a veracidade e profundidade de “O Segredo”, “O Código Da Vinci” e a coluna da Ana Maria Braga no Diário de São Paulo.
Borges disse certa vez que “O Best-seller está pra a literatura como as putas estão pra o amor”. Viva Borges!!!
O que me espanta é a perspicácia editorial, o descuido com a criação e, sobretudo, o descaso dos publicitários com as aulas de produção textual e semiótica que certamente lhes custaram alguns finais de semana de cervejada perdidos pra passar nas provas e fazer trabalhos. Ou pelo menos alguns caraminguás gastos pra comprar trabalhos e notas! Após incontáveis noites de Brainstorms regadas à sushi e Pepsi Diet, acho que a criatividade e o bom senso foram espairecer em alguma rave ou verniságe aviadada
Francamente, Paulo, na sua próxima mágica
tente tirar da cartola algo mais que um romancezinho de clichês e personagens manjados com erros absurdos de pesquisa e misticismo barato. Procure no fundo do chapéu uma equipe de criação decente.
Agora vão lá nos comentários e expressem todo o seu repúdio com palavras educadas!

23 comentários:
Com tantos impropérios, precisamos coser essa enxolhada numa lista crimes contra a língua e o povo consumidor
Eu li livros dele há dois anos atrás, se não me engano. Deixa eu ver...
O Monte Cinco
A Diáiro de um Mago
O Manual do Guerreiro da Luz
Veronika Decid Morrer
Na Margem do Rio Piedroa eu Senteii e Chorei
As Valkirias
O Alquimista
O Zahir
O Demonio e a Senhorita Prym
Brida
e Maktub...
Ainda permanecem na minha estante, rsrs.
Não sou fã, mas gosto de ler o que ele escreve.
rs...no fim das contas é entretenimento...como disse Clarisse: "não sei porque as pessoas ligam tanto para literatura"
mas eu ligo um pouco,rsrs
p.s: obrigada pela visita *D
Bom, talvez eu não seja a pessoa mais apropriada para falar de Paulo Coelho. Eu nunca li nem a contra-capa de um de seus livros.
Simplesmente pq nunca fui com a sua cara cinza e trouxa.Eu não gosto de Paulo Coelho, de Raul Seixas e muito menos de Aleister Crowley.
Pq??? Não sei, talvez eu prefira Harry Potter.
Abraço!!!
:)
hehehe...
num sei pq, mas acho q vc tah precisando transar...
vá e semeia a discórdia entre o paradigma literatura x entretenimento...se é que isso seja um paradigma, se que é eu saiba o que é um paradigma, se é que eu saiba o que literatura e tbm entretenimento, pq historiador num sabe escrever história e mesmo os que sabem passam despercebidos pq a gente num tah interessado em palavra bonita, nem em continuidade, pq segundo a escola dos analles a história da história não é linear...a estória morreu graças a historiografia.
Aline em "A arte de desvirtuar os próprios comentários" volta em breve.
Bem, a priore, as palavras chamam a atençao comoas de um filme ganhador de 2 Oscars. Mas parando pra pensar, indo pela logica expressa, realmente é um anunciobem mal planejado, e uma falha ainda maior, pois fala de uma obra de um renomado autor sobre um renomado autor, entao, o minimo a se pensar é o significado das palavras.
É legal dizer que um beijo é fantastico pois é tao maravilhoso quanto um mundo imaginario, mas se é pra falar serio, pensemos no significado das palavras.
Abraços
Olá!
Como você escreve bem, sinto me quase uma analfabeta funcional...
sinceramente eu nunca iria ter prestado atenção no anúncio como você prestou, ia passar batido até pq Paulo Coelho é tão...pobre.
lí aquele famoso sobre o caminho de Conpostela, perdi meu tempo, não me acresentou em nada.
bjo ;)
Pode xingar?
Paulo Coelho é um bosta, perco a fé na humanidade de ver que ele se consagrou como escritor, foi traduzido pra não sei quantas línguas e fez a vida em cima disso, sendo medíocre como ele é.
Nada acima da média; se duvidar, abaixo. Por esse seu texto, por exemplo, você dá um pau nele.
Foda-se Paulo Coelho.
(obrigada)
Fala aew seu blog tá maneiro cara vlw até^^
http://evolucao-money.blogspot.com/
Que me perdoem aqueles que gosta do Pau no Coelho, mas acho que as melhores coisas dele são as letras do Raul Seixas.
www.teiadepodcasts.com
Eu não vou falar mal do Paulo Coelho porque nunca li, nem pretendo, mas os horrores que ouço sobre essa criatura me fizeram perder toda a confiança nele enquanto escritor.
E como escritor qualquer um deve ter cuidado com as palavras. Não precisa ser um purista. Um amante da forma em detrimento do conteúdo. Mas que tenha o mínimo de respeito com os leitores e faça algo bem feitos, sem erros grotescos. E assim são os livros de Paulo Coelho. De um português sofrível, segundo colegas meus.
Outra coisa: não tiro a razão da propaganda da biografia. Não importam os significados das palavras. Os leitores não sabem ao certo qual é mesmo. Só importa que são palavras de impacto, cujo sinônimo para esses leitores será "muito bom" e "excelente". Se fosse a biografia de outra pessoa, talvez essa burrice fosse preocupante.
e a média de três post semanais, hein, hein, hein???
Sinceramente, Paulo Coelho já me salvou a vida. Eu tenho o infeliz hábito de esquecer de comprar papel higiênico. Daí, com pilhas de livros em casa, você não acha que eu iria rasgar qualquer outra coisa pra limpar meu rabo além dos livros desse beócio aí, certo?
Quanto à lista, minha pseudo-cônjuge me ajudou a elaborar uma ontem. Lá vai:
-Plan 9 From Outer Space (1956) - considerado o *PIOR* filme ever.
-Shotgun Wedding (1963)
-Necromania (1971)
-Chicken Park (1994) - tipo Jurassic Park, mas com galinhas
-The Killer Condom (1996) - é, isso aí mesmo. Uma camisinha que te mata arrancando seu pau.
-Guinea Pig (1987) - não assistir depois de encher a barriga - com qualquer coisa.
-Bad Taste (1987) - Primeiro filme do Peter Jackson... perfeito pra combar com LotR
-Nekromantik (1987) - se necrofilia não é trash, não sei mais o que é (e não sei porque tantos filmes escrotos saíram no ano em que eu nasci)
-Cannibal Holocaust (1980) - esse é hardcore... e se passa na amazônia!
-Pot Zombies (2005) - é isso mesmo: zumbis fumando maconha.
-Toxic Avenger (2985) - lembra de Capitão Planeta? É mais ou menos por aí...
Acho que essa lista merece até um post autônomo... e tende a crescer!
Abraço.
agora sim o o'ricc acabou com as minhas esperanças..........
na verdade o que me espanta não é o lançamento do livro em si, mas a necessidade que a população tem em criar ídolos, juntamente com a figura de um cara que nem é da política... até onde isto é "positivo" para ordem?? entendeu ??? Coisa de historiador...
bjos
nossa até onde eu entendo, é positivo pra ordem, ora, uma biografia sobre alguém que "engambela" tão bem essa nossa classe média reacionária e funcionalmente analfabeta, que não traz crítica alguma sobre nada além dos contos, que parcamente, extirpa das "mil e uma noites", faz bem para a alma e o bem estar dessa sociedade que ainda queima, veladamente, livros na fogueira...
pq a idolatria???
exatamente pq "a figura de um cara que nem é da política" satisfaz muito melhor o desejo de se auto-afirmar que a sociedade tem...
entendeu ??? Coisa de historiador...[2]
Qual é a dos imperativos categóricos sobre historiador, aqui, nesse tópico? Eu sou aspirante a historiador também e defendo a violência tautológica! Não precisa de teorias fofinhas pra explicar porque é que a merda fede.
exatamente por isso...
eu sou proto-historiadora...entrei o ano passado na fflch e acheimuito engraçado uma pessoa quediz "coisa de historiador..." nnum ter o menor senso comum de perceber a lógica do paulo coelho ser "ídolo" e sinônimo de "literatura"...por isso a piada/lição de moral...
mas estou aberta ao debate...
Gente, historiador é um bicho tããão bravo! E aí eu fico entre a cruz e a espada, quer dizer, entre a morena e a oriental. Poutz, acho que vou deletar esse blog...
Enfim, na minha máxima ignorância digna da minha formação pífia diante das meninas (nada contra, O'Ricci, mas eu sempre me atenho mais ás meninas) eu prefiro dizer que a importância da biografia do Paulo Coelho reside na ausência absoluta de criatividade que me fez ficar duas semanas sem escrever um texto decente. Só. Ele veio ao mundo com a missão exclusiva de me dar um assunto imbecil pra escrever, afinal, todo mundo sabe que o mundo gira ao redor do meu umbigo e o resto das pessoas na verdade são figurantes que deus criou pra me fazer dar risada. Ah, e a própósito, eu sou Napoleão.
Agora, se vcs quiserem debater o agravamento do desmatamento amazônico em função da produção de papel pra a impressão monstruosa desse livro, fiqeum á vontade, que eu vou tomar meu nescau...
hahahahaha...
Eu acho que tenho uma certa autoridade para falar dessa pessoa!
Também li uma porrada de livros do "Mago" por volta dos meus 12 anos, na verdade entre os 12 e os 15 só lia o "gênio" ai, e achava bom, li quase todos,, e paralelamente lia coisas boas, e fui aos poucos percebendo o quão aquilo era ruim, demorou, pois m inha maturidade literária obviamente ainda estva por vir.
São "bons" livros para quem está começando, para se adaptar com o ritmo da leitura, e nada mais. É uma sujeira literária imensa, histórias sempre iguais, personagens sempre iguais, reflexões rasteiras, acho que não se aproveita nada...
E o que me revolta incrivelmente é que na terra de Dostoievski e Tolstoi, escritores clássicos, o autor mais lido é o "Paulinho".
Corto os pulsos, leio bula de remedio, menos o Harry Grisalho! rs
cataract baghdad spoken renewability hours councilsmart manuscripts least adversarial depended inducers
lolikneri havaqatsu
Postar um comentário