segunda-feira, 9 de junho de 2008

Testamento Redemptório de um Lázaro Suicida

"Perdoem a extensão. certos momentos exigem paciência"
Completo agora os últimos minutos de meus vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil.

Aos vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, vivi como nômade pelas catacumbas labirínticas de minha cidade delírio. Diversos Eus em diáspora pelo deserto de Adão no ventre da serpente. Fui poeta, músico, ateu. Fui vagabundo, explorador, parasita. Fui bêbado, filósofo, amante. Fui um vazio cheio de histórias interessantes.

No curso vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, tive realmente apenas quatro mulheres, dentre as tantas carnes e gemidos que passaram por meus lençóis.
...A primeira que amei era bailarina. Frágil, era vidro e se quebrou. Ainda me lembro, em pesadelos saudosistas, do cheiro dos hospitais. A cor desiludida dos hospitais. As agulhas calculistas dos hospitais. Os sons dissonantes dos hospitais. A crueldade medida dos hospitais. Os dias nos hospitais ainda me freqüentam a noite. O terno que usei em seu enterro, nunca mais o vesti. Carrego-o comigo quando mudo de casa. Nunca me mudei dos hospitais.
...A primeira por quem me apaixonei era leonina. Era menina ainda, e menina encantou-me. Neguei seu amor pela minha desnecessária dor. Carreguei-a na lembrança pelas noites em que me cerquei de vinho e espinhos. Assisti tornar-se mulher, á distância. Aplaudi-a de longe, de meu camarote mofado. A menina por quem me apaixonei descortinou-se dourada no palco mundano decadente que se encanta com seu canto canário. É imperatriz de si mesma, cercada por servos de si mesmos. Não há deus ou diabo que lhe governe as vontades. Seus calcanhares de aço galgam caminhos dos quais fugi. A menina por quem me apaixonei tornou-se mulher, e eu, cadáver de minha meninice, aplaudo com mãos arenosas que já não ecoam além de meu camarote mofado. Afogo-me em meu eco surdo.
...A primeira que machuquei era madre-pérola. Sutil, rósea, etérea. Chorava mais do que sorria. Criava em tinta e papel a mulher que não ousava ser. Sonhava vidas e vivia silêncios. Dentre as mulheres para quem menti, dentre as camas que freqüentei, dentre as cicatrizes que espalhei, foi a única por quem traí um “te amo”. Foi o único sangue, entregue-me de livre vontade, de que senti o gosto. Foi lírio que esmaguei. Foi a inocência que matei.
...A primeira mulher que me enganou era cocaína. Colecionava borboletas, cultivava beleza na morte que infligia cínica. Trouxe-me á tona a repugnância que nunca consegui encontrar no vinho, no vício, na vida. Presenteou-me com toda a ojeriza que busquei em uma decadência construída. Dei-lhe, em troca, o tapa que tanto procurei e nunca recebi. Arrastou-me ao inferno que tanto busquei. E, no final, alcancei a indiferença que sempre desejei. Quando lhe cuspi ás faces, harmonizei-me com o deus que sempre quis ser. Enoja-me o deus que sempre quis ser.

Por vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, dividi casas e copos com corpos vazios de almas. Guardei fotos de que não tenho saudades. Esqueci nomes que pronunciei como escarro. Vidro moído que engoli á seco.

Durante os meus vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, conheci boas pessoas, que atirei ao limbo dos puritanos. Mãos estendidas que troquei por solidões românticas. Amizade que a vaidade tornou ofensa. Reinar no inferno antes de servir no paraíso.

Durante meus vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, tive um único amigo por quem morreria. Apunhalamo-nos as costas em abraços fraternos. Esquecemo-nos um do outro para que pudéssemos esquecer-nos das correntes que arrastamos. Imolamo-nos em altares de pedra para pagar os cadáveres de nós mesmos que espalhamos sob um céu de corvos carniceiros. Em algum ponto dos vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, perdi um irmão.

Por vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, ostentei a obviedade iconoclasta como sabedoria. Alimentar a hipocrisia dos adormecidos só os embriaga de ignorância, e perante ignorantes o fingidor é visionário. “Todo poeta é um fingidor”, disse o homem de mil homens. Bastardo! A poesia é a verdade que se apresenta ao poeta. A poesia existe sem o poema, o poeta é servo de sua vontade. Fingidores são servos da víbora que sibila no pântano de sua mediocridade. Revesti-me da Áurea Mediocritas de uma Arcádia às avessas - pirita reluzente ausente de valor.

Por vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil carreguei estandartes falidos entre legiões aleijadas. Sustentei, com vinho e lascívia, lágrimas de indigentes que precisavam de água e cruz. Falso Dédalo que fui, dei-lhes asas de cera para transpor vulcões flamejantes. Gozei sua queda para encobrir de minha vertigem. Traí-lhes.

Por vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, sonhei sonhos que neguei por pessoas que neguei desperto. Cultivei um pai que não conheci, que vi envelhecer trezentos séculos confinados em uma casa de que fugi, e vi fugir de casa um pai que rejuvenesceu trezentos séculos e um dia por um sonho que sempre negou por pessoas que assumiu sem sonhar. Desprezei um pai que cultivei e amo um homem que desconheço.

Por vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, acompanhado de um cachimbo rachado – Ceci nes’t pas une pipe - discos arranhados e poetas mortos, percorri mil séculos de que não me lembro, cantei versos que nada significaram, louvei deuses que não conheciam as vozes de seus próprios oráculos. O tolo sem número em um tarot de cartas marcadas. Un coup de dés jamais n'abolira le hasard

Por vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, fui fantasma de MacBeth, um conto louco dito por um idiota, uma história cheia de som e fúria, significando nada. Signisangrando só. Do pó ao pó.

Aos vinte e três anos de uma eternidade volátil, de veias secas da peçonha, recuso a maçã viperina. Suicida da vida que encenei, dançarei atrás das cortinas que tecerei de pele e prece.
Ao fim de um último tango em Paris serei Lázaro.
Sudário ao pó.

Nu ao vento.
Livre.

28 comentários:

Fraturas Expostas disse...

A gente sempre superestima os pontos baixos...eles sempre parecem mais pesados, mas em forma de cruz os carregamos. Mas Plínio, meu querido Plínio...a vida é dura mesmo. É de pedra. E nós temos tropeçado ultimamente.
Os pés dóem, eu sei. Ás vezes desejo morrer e rezo pra reencarnar ainda nesse mundo, sujo, que eu tanto amo. Mas não temos essa opção, não é? Só nos basta sair deste caminho de pedras, vamos buscar um chão fluido e leve com nossas vestes brancas...vai dar certo. Tudo vai dar certo. Eu tenho fé em você. Eu amo você.
Nesses vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias e poucas horas de uma eternidade volátil, você foi muitíssimo bem. Foi amado, amou, sofreu amargamente, e colheu os frutos, todos eles, os frutos que uma vida de tentativas de ser bom para você mesmo. Você acabou sendo bom para muitos, repito.
Realmente temos uma visão romântica um do outro. Talvez por temos nos amado muito. Talvez por nos amarmos muito mais agora. E é um privilégio fazer parte da sua vida.
E se eu pudesse viver de novo, escolheria te conhecer novamente.(acho que esse é o meu presente pra você. É de coração, você sabe que é.)

HenriqueM disse...

Mais uma vez voce me brinda com um texto magnifico. O começo fez com que eu me identificasse, e as passagens sobre poesia tambem.
Mulheres nao tive ainda, apenas uma que amo como irma e que dou meu sangue por ela se necessario.
Nunca apunhalei amigos, jamais fui apunhalado. Mas montei armadilhas, e sei que algumas para mim tambem foram armadas - mas nao fim acabamos sempre nos ajudando, e salvando um ao outro de qualquer perigo.

Feliz Aniversario, meu amigo.
Que sua inspiraçao seja um mar que jamais seque, e que sempre escreva mais e mais belamente.

Um abraçao.

HenriqueM disse...

Ah, e obrigado pelas delicitaçoes no meu blog. Fico feliz que tu veja algo de bom no que escrevo.

Ate mais.

o'Ricci disse...

Hm... Colocando assim, em retrospectiva, todos esses personagens apresentados aqui adquirem uma tonalidade quase digna de amizades imaginárias.

O que não deixa de ser bom!

Christine disse...

Oi Plínio! Hoje abri meu caderno e me deparei com o endereço do seu blogger, você me passou meses atrás.
Excelente texto, é incrível que em ''apenas'' vinte e dois anos, trezentos e sessenta e quatro dias... tenhamos tantas experiências. Pessoas passam pelas nossas vidas e deixam ótimas recordações, alguns tornam-se personagens heróicos, outros não, porém, servem como fonte de inspiração e são esculpidos, como você o fez.

Até mais,
KISS

Roberto Casimiro disse...

Muito bom!
Não vou escrever um baita texto aqui pois meu tempo é curto.
Também, nem será preciso comentar, assino embaixo dos comentários feitos.
Obrigado por visitar meu blog e pelas palavras, fico muito grato.
Fiz um novo texto, continuando a minha saga sentimental, pois foi pra uma pessoa especial. Depois pretendo postar alguns mais realistas.
Vamos tomar uma cerveja? Para comemorar seus vinte e três anos, um dia e algumas horas?

abraço!

Calebe disse...

E aí, Plinião?!! Sobre o convite, falando rapidinho: com certeza que estou a fim de bememorar o teu aniversário!

Onde que vai rolar? Vou me inteirar melhor. Antes de ir pro trampo - daqui a alguns instantes - dou uma ligada procê, pra saber de detalhes.

Valeu pelo toque, cara - e pelo comentário.

Abraço,

Calebe

Letícia Castro disse...

É duro a gente ter que começar um post dando satisfações pelo tamanho,nénão? Manda todo o mundo escrever naquela tua lousa do inferno e tá tudo certo!!! hehehe
Amigão, feliz aniversário atrasado e acho a tua existência bem consistente, de vólatil não tem nada, pelo que vejo.
Beijão!
Letícia.

Uriel Gonçalves disse...

Q doido!
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Marcelinux vs Windows disse...

Profundo.


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Amanda Guerra disse...

Mais um texto exuberante! É chato querer comentar e não me sentir capaz de acrescentar alguma coisa a toda essa magnitude!

Enfim, parabéns!

Letícia Castro disse...

Mas a Marilyn era uma p...! E louca, geminiana como vc, vc sabe, né?
Tudo bem se vc não gostou, mas concordo: beauty lies in the eye of the beholder, cada um tem direito a sua opinião.
Obrigada pelo comment lá no Babel.com, tá bom?
Beijo!
Letícia.

Fernando Gomes disse...

Amigo, tô um pouco na corrida agora, mas volto aqui com mais calma pra ler o seu texto, parece bom.

O motivo do comentário é agradecer os seus elogios. Fiquei lisonjeado, afinal ainda estou começando nesse mundo de escritas (e críticas) e receber esse feedback de alguém que por enquanto é desconhecido significa bastante.

Se topar uma parceria de blogs, deixe um comentário lá que eu adiciono você.

Abraço e obrigado.

Não deixe de visitar:
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Alma e Imagem disse...

Como sempre seus textos são fortes! E toda essa força vem nas sua palavras!
Fazer aniverário te permite refletir e quantas linhas quiser,afinal são 23 aninhos. Não te dei parabéns pessoalmente, mas fica aqui um grande beijo!!
Parabéns pelo aniversário e pelo texto!

Marcelo Fabri disse...

É isso aí! Viver bem é poder contar tudo isso. Mesmo que arranhe a garganta ou queime o dedo. Além do que, nada disso é novidade pra nós que bebemos e fumamos.
Eu te odiaria se você só conhecesse o caminho de casa pro trabalho e vice-versa e tivesse uma vidinha ordinária.

Marcelo

Madalena Barranco disse...

Olá Plínio, por isso 2 + 2 são quatro, e 22 + 22, etc., por que seus textos se multiplicam pela idade dos sentidos... Redescobrir a meninice no fundo do poço.
Beijos - tenha uma linda semana.

Daniel Augusto disse...

E afinal são apenas 22 anos...

Ah!! cara muito bom o texto
( e calma que a idade do suicidio é 27...) um momento de alegria e satisfação real no meu dia...são esses momentos que me dão força para caçar a poesia...

^^"

bye

( queria comentar mais só que meus dedos estão congelando e eles doem... mas não poderia passar sem deixar minha marca... ^^" )

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Anônimo disse...

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