Era uma daquelas noites chatas de verniságe. Nos últimos tempos, não suportava mais essas veadagens, não aguentava papo de pintores, poetas e estudantes moderninhos de dread no cabelo e sandália de lona. Cheiro de vinho branco me enjoava. A vida de produtor tinha dessas coisas.Era uma dessas noites em que vestia um paletó sem gravata, jeans e camisa pra fora, circulava um pouco, cumprimentava meia dúzia de pessoas, conferia o equipamento de som, o buffet e me trancava na sala de equipamentos. Ouvia Tom Waits, pegava a garrafa de conhaque no armário, tirava os sapatos e amaldiçoava o glamour da hipocrisia cultural de São Paulo. Principalmente, amaldiçoava o amor incondicional, doentio, que eu tinha por essa nojenta hipocrisia pseudo-intelectual. Amava o horrível bafo de vinho branco, os canapés sem gosto e os saraus chatos com poetas mofados e roucos. Ah, como eu amava tudo isso.
Era uma dessas noites em que praguejava amaldiçoando minha boa sorte, quando o Judeu entrou na sala esbaforido, com aquele tipo de sorriso imbecil que só o sexo e o dinheiro põe no rosto de um homem. Deduzi que fosse o sexo – essas noites atraem um número incrível de estudantes moderninhas de jornalismo da PUC.
Me enganei.
- Cara, adivinha quem tá bêbado assinando um cheque no saguão???
Adivinhei.
Era o Dr. Osmar, com a verba pela qual vínhamos rastejando há meses. Nós dois e mais cinco amigos planejávamos desde o outono do ano anterior um evento em Paranapiacaba. Seria uma semana de mostras artísticas que envolveriam literatura, teatro, música e um recompensador comércio paralelo pouco ortodoxo. Éramos apaixonados pelo ar confortavelmente melancólico daquele vilarejo, suas ruas de paralelepipedos, sua névoa com perfume de beco parisiense, seu mistério londrino e, sobretudo, sua ausência de policiamento. Já tinhamos os planos, já tinhamos os contatos, só faltava a grana. Agora, só faltava comemorar.
Demos alguns telefonemas, avisamos o resto do grupo. Marcamos para a noite seguinte.
Na época eu saia com uma psicóloga ruiva, gótica, coberta de tatuagens e completamente psicótica. Sempre as ruivas psicóticas.
A Ruiva Psicótica começava a invadir o nosso apartamento. Era uma escova na pia, uma calcinha deixada no varal, uma mecha de cabelos no sabonete. Em breve seria uma foto em cima da escrivaninha. Decidi que era melhor não passar um momento tão importante ao lado dela, então disse que ia visitar minha mãe.
Na noite seguinte o apartamento foi completamente invadido. De repente, me sentia dentro de um conto beatnik. O Judeu colocou um cd do Gotan Project, uma babel de garrafas se fez em cima da mesa, e alguém descobriu meu narguilé atrás da cama. A fumaça dos cigarros, cigarrilhas, charutos e demais canais cangerígenos era demais para as poucas janelas, semi-fechadas pela noite fria de julho, e em pouco tempo não se podia enxergar a outra extremidade da sala. O som estava alto demais, e senti que as coisas sairiam do controle quando vi o que estavam fumando no narguilé. Foi quando um hippie sujo derrubou da estante a bailarina de porcelana que eu havia ganhado no Dia dos Namorados do ano anterior. Odeio o Dia dos Namorados, mas fiquei puto mesmo assim. Peguei uma garrafa de vinho e levei meu mau-humor pra passear na escada do corredor.
No topo das escadas havia um casal, não sabia dizer quem estava em cima de quem, mas ignorei-os e me sentei no terceiro degrau. Foi quando notei uma loirinha abraçando os joelhos no canto da parede. Não imaginava bem o que ela havia tomado pra estar vidrada daquele jeito, mas devia ter sido algo forte. Ela cantarolava algo que lembrava “Little Girl Blue”, com um sotaque gaúcho. Foi o suficiente. Ela levantou os olhos, eu balancei a garrafa. Ela sentou no segundo degrau, e eu torci para que ela não tivesse herpes.
Enquanto isso, dentro do apartamento, o Judeu atendia o telefone. Sem conseguir ouvir quem estaria do outro lado da linha, ele simplesmente gritava: “Festa! Vem pra cá! Traz álcool!” e desligava. Foi a prova da existência de Deus, assim como a confirmação de que Ele é um sádico maníaco. Do outro lado da linha, é claro, estava a Ruiva Psicótica.
Eu estava em uma empreeitada hercúlea pra abrir o soutien da Loirinha Vidrada com a mão esquerda sem largar o cigarro, quando ouvi o barulho do elevador. Com a luz da porta, veio a sombra da Ruiva Psicótica, carregando duas garrafas de vinho e um bolo de chocolate. Eu não tive tempo de me espantar ou dizer nada, porque tive que me abaixar quando a primeira garrafa se espatifou no sexto degrau, logo atrás da minha cabeça. Tentei me levantar, fazer cara de mau – afinal, eu era o dono da casa, não podia ser vexado por uma maluca qualquer -, mas a imponência da cena foi quebrada pelo meu suéter de lã preso no fecho do soutien da Loirinha Vidrada. Talvez eu ainda pudesse manter alguma decência, apesar da bebedeira e das linhas de lã italiana que mantinahm semi-erguida a blusa da menina, mas quando o bolo me atingiu eu tive a certeza de que tinha perdido o respeito.
A cena toda transcorreu em menos de dois minutos, mas foi o suficiente pra que vinte pessoas invadissem o corredor pra ver um cara coberto de chocolate e glacê, com a manga do suéter preso aos peitos de uma menina ajoelhada soluçando coberta de vinho e uma mulher de cinta-liga, corpete e mini-saia gritando nomes que fariam corar de vergonha um marinheiro irlandês.
Rápido como se formou, a multidão se desfez. Cinco minutos depois estavam entretidos com uma menina que dançava em cima do sofá e tirava uma peça de roupa a cada tequila que tomava. Nós tinhamos muita tequila.
A Ruiva Psicótica, no auge de sua dignidade, aos berros se trancou no banheiro e só abriu a porta quarenta minutos depois, pra a Loirinha Vidrada se lavar. Saíram juntas da festa, e fiquei sabendo por fonte segura que tiveram um relacionamento feliz e estável por quase seis meses depois disso. Dizem as más linguas que a coisa toda terminou quando a Ruiva Psicótica se converteu á Igreja Estelionatária Universal do Reino de Deus e trocou a cocaína pelo dízimo.
Pela manhã a situação era calamitosa. Meu suéter favorito estava arruinado, a bailarina de porcelana parecia o retrato de Tiradentes esquartejado, o apartamento fedia á marijuana e suor, alguns CD’s haviam desaparecido, haviam novas marcas de cigarros no estofado, o tapete grudava nos pés e a multa de condomíno arrombaria meu orçamento do mês, mas estava feliz. Tinha me livrado da Ruiva Psicótica sem ter que conversar sobre meus sentimentos ou passar por aquela cena ridícula de “ainda podemos ser amigos”. Não , nada de perguntas, nada de telefonemas, nada de expicações, lágrimas ou objetos e verdades pontiagudas voando á esmo. Apenas a praticidade e objetividade do ódio declarado.
É curioso como sentir-se um cretino faz bem á um homem. Nos orgulhamos de nossa falta absoluta de caráter, nos vangloriamos pra nós mesmos com o mesmo cinismo que dizemos “eu te amo” quando a mulher se faz de difícil. No entanto, se somos nós os pénabundeados, logo o “eu te amo” é a verdade mais absoluta do mundo, não entendemos o porque do chute e, se entendemos, nos arrependemos e juramos que nunca mais vamos esquecer a cachorra. Ah, hipocrisia, és a chave da coexistência social.
Preparei uma xícara de capuccino, acendi um cigarro e me senti feliz pela minha saída estrategicamente covarde. Estava até pensando em me barbear e ir á igreja dar uma moedinha pro cara da cruz, quando notei os cacos de vidro vermelho atrás do sofá. Não! Era a segunda e definitiva prova de que Deus realmente existe e é um maldito sádico desaforado. Malditos filhos da puta, quebraram meu narguilé!

19 comentários:
hahaha
gostei...a (sua) vida é mesmo uma comédia!
Que farra, hein amiguinho??? rs Eu choro de rir com esses textos!
Como não seriam moderninhas as estudantes de jornalismo da PUC? A PUC sempre foi antro, palco revolucionário. Não é à toa que o cabeludo tá pregado bem ali, no meio do pátio. Ah, esos judíos...
"La luna la tenemos después de la una en buena posición y yo te voy a explicar por qué."
Bj!
Letícia.
http://babelpontocom.blogspot.com
putz cara, ainda bem queeu faço fflch...odeio gente moderninha...
deixa eu te falar que por mais que sejamos primos em 15º grau, to cada vez mais orgulhosa de pertencer a família ! neguinho, tu é genial.. sem idéia ! manda bem pra cacete... esse conto tá irado e eu cada vez mais impressionada com a tua maneira irônica e incrível de escrever !!!
Parabéns do funnndo do meu incompleto ser, que por acaso, depois de ler seu comentário no meu último post (que diga-se de passagem, ficou melhor do que o próprio post!), fiquei de certa maneira mais relaxada e tive a brilhante idéia de lembrar que o que tá errado é o mundo, e não a gente :P
valeuzasso e parabénssssss !
bjão
Adoro essas festas...mas sempre com copos de plástico e ninguém ciumento.
Mais drogas do que álcool para não ter ressaca e 50 mangos para uma faxineira no dia seguinte.
O texto ficou gostoso de ler.
Abraço
Hahahaha, acho que é o melhor
texto que li aqui até agora.
Descrição perfeita, e os fatos
foram acontecendo como deviam
contecer, sem exageros e tal.
Me lembrou até cenas de alguns
filmes antigos que já assisti -
ou talvez tu tenha sido tão digno
com os detalhes, que fez minha
imaginação trabalhar perfeitamente.
Um abraço, até mais.
p.s.: eu cheguei aqui e quando
vi o tamanho do texto, tive na
intenção de falar para você
escrever menos da próxima vez.
Mas não... Se for para escrever
coisas tão boas assim, continue
escrevendo o quanto quiser, rs.
Sadismo é escrever Paranapiacaba e paralelepípedo no mesmo parágrafo! Aliteração infernal... vou transformar em um trava línguas pra minha sobrinha.
a pegunta que não quer calar:
Cloridrato de Amitripitilina 50mg serve pra quê?
Nota 10! Um conto bem à brasileira.
O que eu mais gosto é a dose certa pra tudo. Humor pontual. As palavras fluem, as idéias são originais, o modo como as organiza é fantástico.
Texto de primeira.
Seu porra.
E não tem uma música que diz assim:
"Todo homem é igual,
o difícil é saber quem é clone de quem"?
Hehe
Abraço
Primeiro gostaria de agradecer tudo que vc disse no comentario(sou a garota em crise pq o namorado é mais velho e a vida é cheia de cobranças nessa época)
mto obrigada viu,
foi realmente confortante(ou seria reconfortante, eu nunca soube...)
me sinto melhor agora, já digeri a situaçao. Muito obrigada por dizer que sou normal e que isso vai passar.
E que post incrivel é esse ( ainda me lembro de vc criticando o incrivel, fabuloso fantastico do Paulo Coelho hehe)
é baseado em fatos reais??
a vida deve ser muito boa, nao vejo a hora de sair por ai...
bjo.
A hipocrisia acaba com qualquer vivência... Enfraquece a grande razão da vida: a felicidade.'Infelizmente', temos de saber 'coexistir'...
Seu texto é 'bem-arranjado'.
Abraço.
nossa! não sabia que voce tinha um blog! vou linkar no meu agora, gostei muito dele. aproveita e dá uma passada lá: www.destruindolaura.blogspot.com
beijinhos!
estou no aguardo da cerveja.
As coisas que você possui acabam possuindo você...
Ah, cara, tô procurando frenéticamente alguma indicação de que isso seja TOTALMENTE fictício! Não consigo me conformar!!! hauhauhauhau
¨Talvez eu ainda pudesse manter alguma decência, apesar da bebedeira e das linhas de lã italiana que mantinahm semi-erguida a blusa da menina, mas quando o bolo me atingiu eu tive a certeza de que tinha perdido o respeito.¨
Tô rindo até agora, na boa!!!
Beijos
não via até hj uma narrativa tão boa .. me prendeu a leitura e liu tudo .. rsrsr
"É curioso como sentir-se um cretino faz bem á um homem. Nos orgulhamos de nossa falta absoluta de caráter, nos vangloriamos pra nós mesmos com o mesmo cinismo que dizemos “eu te amo” quando a mulher se faz de difícil."
é serio isso??
Cara vcs homens merece então a mulher da uma judiada de vez em quando .. rsrsrs
Se fazer de dificil é pouco ..tem que dar uma pisadinha com salto 12 agulha ... kkkk
Gostei muito .. viu!!!
abç.. to esperando a próxima sua ..
^^ Nao vou repetir o q todos jah disseram. Mas vou comentar sobre o "harry potter grisalho" do outro post, rsrsr. O q soube dessa biografia soh me fez pensar assim: bizarro!
A sinceridade e uma merda! rsrsrs Acabou de entregar a categoria!
Beijos
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