sexta-feira, 18 de julho de 2008

O Francês

Todas as manhãs, sentado ao balcão da padaria em frente ao trabalho, pedia meu café, acendia um cigarro e via a figura magra atravessando a rua. A elegância era inegável, apesar da avançada idade. O Francês usava sempre paletó de tweed cinza, mesmo no verão. Ele parava em frente á padaria pontualmente ás sete da manhã, sorria e acenava para um dos garotos do balcão, que corria até a porta com um pedaço de pão velho, apressado em enxotá-lo antes que seu fedor espantasse a clientela. Ninguém gosta de mendigos.

Certa vez encontrei o Francês sentado em uma escadaria, de madrugada, e sentei-me no mesmo degrau. Fazia muito frio, e eu tinha comigo uma garrafa de conhaque. O Francês desconfiou, mas aceitou um gole. A garrafa estava no final, e ofereci um vinho no bar da frente. O Francês preferia cachaça. Bêbados sempre tem boa histórias.

O Francês chamava-se Armand Debussy, e tinha sido professor de literatura na universidade de Montmartre. Um dia, em férias em Amsterdã, foi com alguns colegas ao bairro vermelho, e lá conheceu Sandra. Foi amor á primeira trepada.

Sandra era uma mineirinha jeitosa, morena mingnon de boa família. Ela tinha tudo que uma menina podia querer - dinheiro, carro, estudo, uma família amorosa e gentil, uma casinha com cerca branca e um cão chamado Bob. Porém, a puberdade fez-lhe refém das pulsações abaixo da linha do equador. Era ninfomaníaca. Atrás da igrejinha, nos matagais da fazenda, na cachoeira ou na casa do professor de piano, baixava-lhe a Súcubus de olhos verdes, e em pouco tempo a cidade toda já conhecia sua fama e suas curvas. Papai era homem compreensivo, mas era também beato fervoroso, além de candidato á vereador. Não ficava bem que sua prole fosse afamada como bem público desde o quartel até o curral. Sandra foi enviada à um colégio suiço, que jamais teve a sorte de ver seu rebolado latino. A Súcubo estava livre.

Armand ficou encantado com a beleza Iracema de Sandra e pediu-lhe em casamento. A moça, claro, não trocaria a vida luxuriosa pra viver ao lado de um professorzinho careca, trinta anos mais velho, cheirando á naftalina e livros. Livros, imagine, que horror!

Armand, tomado pela imbecilidade esperançosa dos apaixonados, pediu demissão da universidade e se mudou pra Amsterdã, onde abriu uma livraria. Ia todas as noites visitar Sandra na zona. Ela recebia sorridente seus presentes, mas só consentia em atendê-lo uma vez por semana. Não queria abrir mão dos outros clientes, mesmo que o professor pagasse valor bastante acima da taxa de serviço cinco-estrelas (que incluia um ritual complexo envolvendo algemas, creme de leite e um maço de penas de pavão-real) apenas pra ficar observando ela penteando os cabelos, experimentando jóias, pintando as unhas. Ao final, Sandra abria a porta e ele ia embora, sem uma palavra sequer.

Foram cinco anos nessa rotina, até que os vinte e oito invernos começaram a abalar os lucros de Sandra. Não que ela tivesse em algum momento perdido a firmeza das carnes, não era isso. Estava cada dia mais bonita, com a segurança e sensualidade que só os anos fornecem á uma mulher. Mas, fato era, empresarios cansados das esposas preferem lolitas magricelas sentadas nos seus colos gordos, como bonecos de ventríloco que rebolam e engolem até última gota.
Finanças em risco, Armand parecia um investimento de baixo risco, capital de giro razoável e lucros á curto prazo. Casaram-se em um cartório, ele de terno, ela de porre.

Armand quis levá-la para Paris, mas Sandra não pretendia sair de Amsterdã. A sacanagem deixara de ser profissão, agora era praticamente um trabalho filantrópico. Sandra sumia por noites seguidas, reaparecendo na porta de casa dentro do carro de homens jovens e bonitos. A mulher chegava cheirando à whisky, maconha e suor, e Armand lhe preparava um banho de banheira e lhe massageava os pés. Ele era mais feliz do que nunca.

Passados dois anos, Sandra engravidou. Armand entrou em êxtase. Sabia que o filho não poderia ser seu, mas poderia criá-lo, dar-lhe seu sobrenome. Imaginava que o instinto materno fecharia um pouco as pernas de sua esposa. Saiu e comprou um berço, um ursinho e um enorme bouquet de flores.
Dois dias depois, Sandra decidiu fazer um aborto.

Viajaram para São Paulo. Sandra queria ser operada no Brasil, na clínica de um amigo, apesar da facilidade do serviço em Amsterdã. Armand, na patética letargia dos românticos, consentiu.

Na manhã da cirurgia, Sandra pediu à Armand que esperasse no hotel. Justo, afinal ele não estava presente no momento da concepção, não tinha porque estar no momento da execução.

O Francês esperou a tarde toda, e a noite toda também, e esperou por um mês trancado no quarto do hotel. Sandra lhe dera o telefone da clínica. Armand ligou. Era o número do zoológico municipal.

Durante um mês de espera Armand dormiu sentado em uma cadeira de frente pra a porta. Quando a esperança secou, deixou as malas no quarto e saiu apenas com o terno Pierre Cardim que usa agora. Voltava todas as noites ao hotel e perguntava pela esposa, mas não permitem mais que passe pela porta. O segurança do hotel deixa ele dormir escondido na garagem.
Armand espera há mais de um ano.

Levantei-me pra pagar a conta. Quando voltei ele já tinha ido embora. Deixou um guardanapo rabiscado em cima da mesa. Lia-se:

Le regard singulier d’une femme galante
Qui se glisse vers nous comme le rayon blanc
Que la luneonduleuse envoie au lac tremblant,
Quand elle y veut baigner sa beuté nonchalante


É a primeira estrofe de O Vinho do Solitário, de Baudelaire.

O Francês nunca mais passou pela padaria de manhã.

19 comentários:

Letícia Castro disse...

Gostei, bem imagético, me fez lembrar "O Anjo Azul". O encadeamento dos fatos está primoroso, como sempre.
La langue française unique, comme toujours.
Parabéns!
Beijo!
Letícia.

Marcelo Fabri disse...

P-U-T-A-Q-U-E-T-E-P-A-R-I-U-!-!-!
(com todo respeito a ela)
Que puta estória legal, camarada!!
Adorei o trecho: "Casaram-se em um cartório, ele de terno, ela de porre." E outro: "afinal ele não estava presente no momento da concepção, não tinha porque estar no momento da execução."
Muito bom...
Marcelo

Deh disse...

Olá... hoje li o meu primeiro post no seu Blog. Adorei o conto do Francês. Seu texto é gostoso e leve, adorei...

Acho que passarei por aqui mais vezes

:)

Fraturas Expostas disse...

ah cara, que legal...muito bem escrito.
mas peço-lhe encarecidamente que me traduza aparte em francês s~enão minha compreensão do texto fica incompleta.
bjos

Caio Rudá disse...

Gostei desse também. Embora não da mesma qualidade do anterior (mas também, Hiprocrisias & repercussões foi talvez o melhor que já li por aqui) mais um conto bem escrito.

Acho que pecou na superficialidade dos fatos. Esse carecia de mais detalhamento, mas é só uma opinião. Demais, lembrou levemente Machado em alguns de seus contos: começa a história, o leitor já esboça o restante do texto, mas o desdobrar dos fatos o leva a episódios além da imaginação prévia.

Os versos em francês no final é que me quebrou...

Passei também pra comunicar sobre mais um presente, um selo lá no meu blogue.

Marcelo Fabri disse...

http://br.geocities.com/edterranova/baudelapoe107.htm

O VINHO DO SOLITÁRIO

O olhar tão singular de um mulher galante
Que para nós desliza à feição de alvo raio
Que a Lua ondeando envia ao lago num desmaio,
Quando ela vem banhar a beleza hesitante;

A última ficha às mãos do último jogador,
Um beijo libertino da magra Adelina,
Os sons de uma canção enervante de fina,
Como o grito a morrer de desumana dor,

Isto não valerá, ó garrafa profunda,
Os bálsamos de amor que na pança fecunda
Guardas ao coração dos pobre poetas teus!

Tu lhe dás esperança e vida e mocidade;
- E o orgulho, este tesouro da mendicidade,
Que nos torna triunfais, semelhantes a Deus!

Letícia disse...

Feliz Dia do Amigo, amiguinho!!!
Beijo!

Fernando Thadeu disse...

Vlw Marcelo pela música postada, afinal se o Plinio colocasse a tradução, acho q perderia um pouco do romance e da magia desse texto.Muito loko mesmo. O plinião tá foda meu......gostaria de estar ainda nesse mesmo ritmo q vc. Me esforcei pra caramba pra postar o meu ultimo texto....e vendo o seu me lembro de quando tinha orgulho de meus textos....hj tá foda!
Mas parabéns pra vc e muita sorte na migração de seu curso superior.
Abraço.

Madalena Barranco disse...

Olá Plínio,

Quem diz que o "amor" não cega? Você contou uma história tão real, que tive a impressão de ver o francês perambular pelas veias abertas de seu coração...

Beijos.
P.S.: sairei de férias por duas semanas, mas continuarei visitando o Leia Livro e seu blog. Na volta envio-lhe mais textos. Obrigada!

pk disse...

ahhahahah
sabes que sou seu fã....mais cara
esse ficou realmente otimo!!!!
eu ja fiz paradas como essas com mendigos e putas velhas...
sempre são impressionantes
todas dignas de virar livro,foi genial a parte dos vinte e oito invernos,uma maneira perfeitamente poetica de contar o tempo.
foi impossivel naum dar risadas quando li isso

Justo, afinal ele não estava presente no momento da concepção, não tinha porque estar no momento da execução.


parabens como sempre!
abraços

Letícia Cattelan disse...

Delicioso conto. O mais impressionante é que quando passamos por um "mendigo" nem pensamos que existiu toda uma trama, antes daquela situação. E esse motivo (o amor) coube muito bem. Afinal todos nós nos tornamos meio mendigos qdo esse é o tema.

Abraço!!!
:)

Daniella disse...

Plínio,

PARABÉNS!!!!
Sabia que vc tinha talento pra isso!!!
hahahahahaha

Esse foi o primeiro conto seu que li e já gostei!!!!
Espero ter tempo pra ler os anteriores!!!

Bjm, D

HenriqueM disse...

Cômico na dose certa e triste. Só de imaginar no sujeito esperando a mulher por tanto tempo, é de me chacoalhar de tanto rir. Ai ai, por onde anda essa mulher?

melk jus disse...

muito bom esse conto cara, muito bom mesmo, leve e na medida certa. foi tú que o "pariu"?

Thaís Abdala (: disse...

A página não estava carregando :S desculpas .

Você escreve bem e o blog está bem organizado, parabéns :)

- Abraços

o'Ricci disse...

Caralho... Personagem mais resignado só Pablo de For Whom the Bell Tolls. Franceses e espanhóis... humpf!

Junk Punky disse...

Caramba, sem fôlego. Você escreve muito, puta merda quem dera eu ter metade da sua coerência e clareza, estaria mais que feliz.

Muito obrigada pelo comentário sincero, foi bom ver que eu estava dramatizando demais as coisas mas tudo passou como veio e escrevendo isso e relendo depois mostrou o quanto consegui aumentar as coisas...
uma pergunta, seus contos são baseados em fatos reais?

bjo.

Fraturas Expostas disse...

lupicínio.

Laura Sobenes disse...

sempre muito bom. gosto de passar aqui... =)

então, comecei um blog com uma amiga. ainda não tem muita coisa, mas em breve, vai ser interessante. pelo menos a proposta é. hehehe dá uma olhada lá, quando der.

www.nossos-botoes.blogspot.com

grande beijo!