sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Luz, Gelo e Óleo de Cozinha num Quarto de Nabokov

Gelo e óleo de cozinha. Eram imprescindíveis, á despeito de todo o equipamento tecnológico, de todas as luzes e flashs e photoshop, o gelo e o óleo de cozinha não podiam ficar de fora.

Quando eu era criança, todos os garotos do condomínio se reuniam na garagem pra ver revistas de sacanagem. Olhávamos, repetíamos palavrões que ouvíamos de nossos pais, e no final concordávamos que a profissão ideal era fotógrafo de mulher pelada. E agora lá estava eu, com uma câmera, um quarto de hotel, uma menina sobre a cama, gelo e óleo de cozinha, e me perguntava, onde estava aquele glamour, todo aquele tesão de pré-adolescente?

Não é que a menina não fosse atraente. Era lindíssima.O corpo escultural, devidamente esculpido á golpes de bisturi sobre uma mesa de inox, pago em trinta e duas vezes no cartão de crédito; os olhos azuis de vidro, umedecidos com soro fisiológico; os lábios injetados; a cabeleira oxigenadamente loira; os cílios postiços... um corpo de mentira, como os orgasmos de mentira, as carícias de mentira, as caras e bocas de mentira de que vivia a menina. Mentiras de aluguel para homens que mentiam para as esposas em casa, que mentiam pra si mesmos, com suas mentirosas felicidades feitas de carros luxuosos, ternos italianos, clubes de pôker, famílias de plástico e meninas como aquela. O sucesso nojento de um mundo canibal. Eu era pago pra produzir belas mentiras, com luz, gelo e óleo de cozinha.

Antes eu fotografava peças de catálogos de autopeças, canetas e outras babaquices quaisquer. De vez em quando pintavam alguns casamentos e aniversários. Foi em um casamento que eu conheci o Álvaro, um gay gordo com anel dourado no mindinho. Conversamos sobre o ridículo ritual pré-nupcial católico, ele pediu meu cartão e disse que tinha um serviço pra mim. Ele estava abrindo uma agência de acompanhantes para executivos, e queria que eu fotografasse as meninas. Dinheiro grande pra um falido como eu.

O processo era complexo. Álvaro me ligava quando uma menina nova entrava pra o casting, me passava os dados dela e marcava um encontro em um café. Passávamos a tarde e a noite conversando e bebendo, pra que ela se sentisse á vontade comigo, como se fosse um amigo ao invés um açougueiro expondo um pedaço de vitela num gancho. Eram todas universitárias poliglotas que precisavam bancar os estudos, as roupas de grife, as baladas e a cocaína, pra não ficarem deslocadas entre a filhas de desembargadores e juízes da faculdade. Falávamos sobre arte, sobre futilidades e sobre a vida delas. Geralmente a noite acabava com a menina chorando, bêbada, confessando as dificuldades da vida de prostituta e o orgulho dos pais, na cidadezinha de interior, por ter uma filha que estudava e trabalhava tanto. Ou, ás vezes, com a imbecil exaltando uma filosofia epicurísta transfigurada em frases de auto-ajuda feminista pra disfarçar com indiferença o njo que sentia de si mesma e a vergonha de não conseguir ser mais do que uma boceta bem paga. Tornei-me mais psicólogo do que fotógrafo.

A sessão acontecia em duas fases. Na primeira eu fotografava books inocentes. Álvaro montou uma agência de modelos de fachada, que servia como álibi para os pais das meninas não desconfiarem de nada. Assim, periodicamente elas podiam enviar pra casa fotos de supostas campanhas para revistas e lojas, e justificavam o dinheiro que certamente não ganhariam como garçonetes de alguma espelunca. Na segunda fase, fazíamos as fotos do site.

Álvaro alugava sempre duas suítes em lados opostos do hotel, de modo que as janelas apontassem sempre na direção do sol. Eu dispensava maquiadores, preferia que elas trouxessem uma amiga que lhes ajudasse, pra ficarem mais á vontade. Nunca ficávamos sozinhos na sessão. Elas ficavam nervosas. É engraçado como entravam facilmente nas personagens com os clientes, mas eram apenas meninas comigo.

Eu dispensava também os grandes equipamentos de iluminação. Tripés e spots de luz fazem o ambiente parecer uma sala de cirurgia. Funcionam pra revistas pornográficas e books de moda, mas executivos queriam meninas, como as amigas de suas filhas pelas quais se masturbavam depois de deixar as crianças no colégio. O equipamento consistia basicamente em uma câmera, um aparelho de som, tecidos e uma ou duas garrafas da bebida favorita delas.

Começávamos com algumas fotos sem importância, só pra descontrair. As primeiras cinqüenta fotos eram lixo. Então eu seguia servindo os copos. Usava copos escuros, de modo que podia encher o da menina de bebida e o meu com metade de água. Ela bebia, dançava, ria muito, fumava. Então eu lhes passava o óleo de cozinha no corpo, pra dar textura. Elas ficavam soltas, mas a pele precisava ficar arrepiada, os bicos dos seios precisavam ficar eriçados, e aí entrava o gelo nos mamilos. Então, depois de muita bebida, um pouo de óleo de cozinha e gelo, voilá! Meu trabalho estava terminado. Então eu chamava um taxi pra elas e voltava á pé.

Depois de cada ensaio eu ia sempre pra o mesmo bar, enchia a cara e passava a noite pensando no que seria daquelas meninas. Elas ganhariam o dinheiro dos porcos que forjavam congressos em São Paulo pra se divertir, gastariam tudo da maneira mais supérflua possível, e se achariam vagabundas toda vez que a ressaca batesse de manhã. Então, em quatro ou cinco anos estariam formadas. Médicas, advogadas, publicitárias, dentistas. Casariam com os filhos dos ricaços asquerosos que tinham se esfregado nos seus corpos jovens, teriam filhas e passariam madrugadas preocupadas enquanto essas filhas estariam em festas. Dariam conselhos. Freqüentariam a igreja e as reuniões da Associação dos Amigos do Bairro, e sofreriam de ciúmes quando seus maridos viajassem para os congressos fora da cidade, pra se divertir com as filhas universitárias de suas antigas colegas. Que pesadelos teriam essas meninas nos próximos vinte anos? Como seria viver com o medo do passado vir a tona, em um site perdido na web, em um catálogo perdido em uma gaveta de um velho executivo? Viveriam elas com esse medo, pensariam nisso ou eu superestimava o senso de humanidade e a inocência daquelas meninas? Meu lado altruísta esperava que sim. Meu lado egoísta esperava que não. Sempre preferi ser egoísta. Um brinde à Stirner, Nietzsche e demais ofídicos de pena e tinta!

Durante os cinco meses em qeu fotografei para o Álvaro, posaram cinquenta e oito garotas. Nunca me deitei com nenhuma delas. Elas eram só meninas. Eu era a prostituta ali.

Durmam bem, meninas. Tenham bons sonhos.

29 comentários:

The Ideas of a Vintage Doll disse...

Senti um certo ciumes... rsrsrs

Junk Punky disse...

Perfeito como sempre...
lembro que um dia quis ser assim, largar td , deixar de ser "boazinha" mas graças a deus passou..ufa. Eu era mais criança e descabeçada , doidera não...

bjo.

Caio Rudá disse...

Excelente. Sempre espero muito das suas histórias, e elas sempre correspondem à expectativa.

Marcelo Fabri disse...

Baixou um antropólogo da modernidade?
Muito legal e gostoso de ler.

pensador made in vaso disse...

é assim, ora, a necessidade desta sociedade de merda, hipocrita por pregar valores que não segue, que não gera perspectiva e envenena o indivíduo, preso em ilusões que nunca se concretizarão, e se vendem, não os corpos, a carne, como vc disse, mas todo o resto.

abraços libertários

Jonatas Fróes disse...

Cara, que experiência de vida que você passou! Lá na minha faculdade, conheço duas prostitutas. Trabalham no mesmo lugar, com o mesmo objetivo: juntar uma boa grana pra terminar a faculdade e sair do Estado. E como você descreveu, a vida delas é exatamente essa, de baladas, ricos porcos, cocaína e infelicidade. Fico um pouco indignado de pessoas boas e que podem ter um bom futuro se entreguem à uma profissão que degrada sua imagem, seu físico, seu psicológico e seu espiritual. Elas ganham bem e não reclamam, mas ao mesmo tempo sabem que ali estão fazendo a pior coisa do mundo. Chega a ser triste.

[]'s

Musikaholic

Guerras Secretas disse...

Contagiantemente bem escrito como sempre, até me fez lembrar de umas coisas que eu jurava que já tinha esquecido.
Voltei à blogosfera depois de MUITO tempo afastado, e provavelmente não vou ficar logado tempo o bastante como sempre, mas vou tentar reservar um dia pra ler todos os textos seus que eu perdi enquanto estive fora.

Edy Nunes disse...

Cheguei até aqui, através do blog Expresso sem açúcar, por favor! - do meu caro amigo Fábio.

Os elementos urbanos em seus textos, torna a leitura prazerosa e contagiante.

Aguardo o próximo texto...

Parabéns pelo trabalho!

Edy Nunes disse...

Cheguei até aqui, através do blog Expresso sem açúcar, por favor! - do meu caro amigo Fábio.

Os elementos urbanos em seus textos, torna a leitura prazerosa e contagiante.

Aguardo o próximo texto...

Parabéns pelo trabalho!

Fraturas Expostas disse...

pois é, me lembro no 1° ano qdo vc me contava essa história...vc sempre falava desse trampo com um certo desprezo...de vc mesmo...mas são boas histórias, de um passado que moldou vc do jeito q vc é...
beijos...

(nem comentou meu texto ainda, hein? humpft!)

Alma e Imagem disse...

Muito bom Plínio!!
Adorei sua observação sobre o assunto, da maneira humana com que tratou as dificuldades dessas meninas e dos sonhos que existem sim!!
E que bom que a fotografia teve tal envolvimento!!Conhecer pessoas, dividir experiêcias... Isso é o que mais gosto na fotografia.. e claro, para quem tem sensibilidade.

beijosss

Alma e Imagem disse...

Muito bom Plínio!!
Adorei sua observação sobre o assunto, da maneira humana com que tratou as dificuldades dessas meninas e dos sonhos que existem sim!!
E que bom que a fotografia teve tal envolvimento!!Conhecer pessoas, dividir experiêcias... Isso é o que mais gosto na fotografia.. e claro, para quem tem sensibilidade.

beijosss

Madalena Barranco disse...

Olá Plínio,

No final você coloca os arreios nos devidos lugares... Ops, quero dizer, as personagens de papéis trocados com acerto, porém, que lhes assentam melhor!
Sua arte de escrever sobre o submundo me encanta.

Abraços.

HenriqueM disse...

Sem palavras para seu texto. Tanta experiência que tu derramou em cada linha...
E é verdade, e o futuro? O que será dessas mulheres? Viverão no medo de um passado descoberto? Uma frase é certa: uma vez na internet, para sempre na internet.
É preciso pensar bem antes de fazer qualquer coisa.
Mentira, ninguem pensa quando precisa.
É apenas necessário enfrentar o medo posterior.

FelixCatus disse...

Olá! Achei seu blog pelo HenriqueM. Adorei o conto. Acho que vou fuxicar os textos anteriores. Posso? rsrs

o'Ricci disse...

Nice it is! Falando em Nabokov, há um vídeo dele em um programa de TV canadense da década de 50 discutindo sobre esse mesmo tema da narrativa... se bobear até no youtube você acha isso.

Abraço!

Junk Punky disse...

Hey

=D
obrigada por comentar. Bom, Anthrax é mais velho que eu, então tudo que é mais velho que eu considero..é...velho. muitas pessoas ouvem o som da moda e eu tô lá nostalgiando ouvindo legião. me chama de estranha o0

até mais,
valew

DuDu Magalhães disse...

Então, tudo depende da nossa imaginação? E a antropologia... se fez presente :D

Manozord disse...

mto show mano parabens blog rox

MeL Gray disse...

Nossa muito bom esse texto.Muito incrivel como mostra a realidade das coisas...atras das cortinas ha um mundo nojento, e fazemos parte desse sistema...Muito bom o texto otimas palavras...

Valeu

MeL Gray disse...

Nossa muito bom esse texto.Muito incrivel como mostra a realidade das coisas...atras das cortinas ha um mundo nojento, e fazemos parte desse sistema...Muito bom o texto otimas palavras...

Valeu

Jana Cambuí disse...

Cara, eu nem sei o que dizer, mas tenho que comentar algo. Esse teu texto é intenso, possui um vigor estilístico, é astuto. É como um grito.
é, eu nem sei o que dizer, além de que voltarei aqui com certeza, porei nos "favoritos".

Bubu disse...

Ahh Plíniooo
Não tem o que comentar!!!!
Fantástico como sempre!!!Adoro suas idéias e contos!!!!e divirto muito também!!!
Bjinhos

Roberto Casimiro disse...

Boa, "grande" Plínio!

É sempre bom voltar aqui e ler algo bom.

Seus textos são uma inspiração para quem gosta de ler e criar. Parabéns!

Abraço.

Eve disse...

Antes de ir a merda ( bom incentivo nos comentários...rs) Vim me juntar aos outros, e dizer o mesmo Parabéns.
Seu texto tem vida, faz c/ que nos sentimos algum desses personagens, até mesmo os que estão ali inseridos apenas no plano de que serão os próximos.
Verdadeiro e simples, qualidades admiráveis.
Obrigada por alimentar meu lado voyer e me tirar dele tb.

Luísa disse...

texto delícia de ler.
e olha que quase eu nunca leio até o fim...
volto aqui mais tarde.

pk disse...

Eu precisava desse blog no ar!!!!


Finalmente Nosso amigo beberrão(Hic!)Cumpriu sua promessa....

:)abraços caraaaa

PS:Queremos novidades!

pk disse...

Eu precisava desse blog no ar!!!!


Finalmente Nosso amigo beberrão(Hic!)Cumpriu sua promessa....

:)abraços caraaaa

PS:Queremos novidades!

Íria Acosta disse...

fazia MUITO tempo que eu não passava por aqui.. e não é motivo de surpresa: os textos continuam muito bons!

Parabéns pelo blog, mais uma vez..

Deu até vontadinha de escrever!

Beeeeeeijos.