Quando eu era criança, todos os garotos do condomínio se reuniam na garagem pra ver revistas de sacanagem. Olhávamos, repetíamos palavrões que ouvíamos de nossos pais, e no final concordávamos que a profissão ideal era fotógrafo de mulher pelada. E agora lá estava eu, com uma câmera, um quarto de hotel, uma menina sobre a cama, gelo e óleo de cozinha, e me perguntava, onde estava aquele glamour, todo aquele tesão de pré-adolescente?
Antes eu fotografava peças de catálogos de autopeças, canetas e outras babaquices quaisquer. De vez em quando pintavam alguns casamentos e aniversários. Foi em um casamento que eu conheci o Álvaro, um gay gordo com anel dourado no mindinho. Conversamos sobre o ridículo ritual pré-nupcial católico, ele pediu meu cartão e disse que tinha um serviço pra mim. Ele estava abrindo uma agência de acompanhantes para executivos, e queria que eu fotografasse as meninas. Dinheiro grande pra um falido como eu.
O processo era complexo. Álvaro me ligava quando uma menina nova entrava pra o casting, me passava os dados dela e marcava um encontro em um café. Passávamos a tarde e a noite conversando e bebendo, pra que ela se sentisse á vontade comigo, como se fosse um amigo ao invés um açougueiro expondo um pedaço de vitela num gancho. Eram todas universitárias poliglotas que precisavam bancar os estudos, as roupas de grife, as baladas e a cocaína, pra não ficarem deslocadas entre a filhas de desembargadores e juízes da faculdade. Falávamos sobre arte, sobre futilidades e sobre a vida delas. Geralmente a noite acabava com a menina chorando, bêbada, confessando as dificuldades da vida de prostituta e o orgulho dos pais, na cidadezinha de interior, por ter uma filha que estudava e trabalhava tanto. Ou, ás vezes, com a imbecil exaltando uma filosofia epicurísta transfigurada em frases de auto-ajuda feminista pra disfarçar com indiferença o njo que sentia de si mesma e a vergonha de não conseguir ser mais do que uma boceta bem paga. Tornei-me mais psicólogo do que fotógrafo.
A sessão acontecia em duas fases. Na primeira eu fotografava books inocentes. Álvaro montou uma agência de modelos de fachada, que servia como álibi para os pais das meninas não desconfiarem de nada. Assim, periodicamente elas podiam enviar pra casa fotos de supostas campanhas para revistas e lojas, e justificavam o dinheiro que certamente não ganhariam como garçonetes de alguma espelunca. Na segunda fase, fazíamos as fotos do site.
Álvaro alugava sempre duas suítes em lados opostos do hotel, de modo que as janelas apontassem sempre na direção do sol. Eu dispensava maquiadores, preferia que elas trouxessem uma amiga que lhes ajudasse, pra ficarem mais á vontade. Nunca ficávamos sozinhos na sessão. Elas ficavam nervosas. É engraçado como entravam facilmente nas personagens com os clientes, mas eram apenas meninas comigo.
Eu dispensava também os grandes equipamentos de iluminação. Tripés e spots de luz fazem o ambiente parecer uma sala de cirurgia. Funcionam pra revistas pornográficas e books de moda, mas executivos queriam meninas, como as amigas de suas filhas pelas quais se masturbavam depois de deixar as crianças no colégio. O equipamento consistia basicamente em uma câmera, um aparelho de som, tecidos e uma ou duas garrafas da bebida favorita delas.
Começávamos com algumas fotos sem importância, só pra descontrair. As primeiras cinqüenta fotos eram lixo. Então eu seguia servindo os copos. Usava copos escuros, de modo que podia encher o da menina de bebida e o meu com metade de água. Ela bebia, dançava, ria muito, fumava. Então eu lhes passava o óleo de cozinha no corpo, pra dar textura. Elas ficavam soltas, mas a pele precisava ficar arrepiada, os bicos dos seios precisavam ficar eriçados, e aí entrava o gelo nos mamilos. Então, depois de muita bebida, um pouo de óleo de cozinha e gelo, voilá! Meu trabalho estava terminado. Então eu chamava um taxi pra elas e voltava á pé.
Depois de cada ensaio eu ia sempre pra o mesmo bar, enchia a cara e passava a noite pensando no que seria daquelas meninas. Elas ganhariam o dinheiro dos porcos que forjavam congressos
Durante os cinco meses em qeu fotografei para o Álvaro, posaram cinquenta e oito garotas. Nunca me deitei com nenhuma delas. Elas eram só meninas. Eu era a prostituta ali.
Durmam bem, meninas. Tenham bons sonhos.

29 comentários:
Senti um certo ciumes... rsrsrs
Perfeito como sempre...
lembro que um dia quis ser assim, largar td , deixar de ser "boazinha" mas graças a deus passou..ufa. Eu era mais criança e descabeçada , doidera não...
bjo.
Excelente. Sempre espero muito das suas histórias, e elas sempre correspondem à expectativa.
Baixou um antropólogo da modernidade?
Muito legal e gostoso de ler.
é assim, ora, a necessidade desta sociedade de merda, hipocrita por pregar valores que não segue, que não gera perspectiva e envenena o indivíduo, preso em ilusões que nunca se concretizarão, e se vendem, não os corpos, a carne, como vc disse, mas todo o resto.
abraços libertários
Cara, que experiência de vida que você passou! Lá na minha faculdade, conheço duas prostitutas. Trabalham no mesmo lugar, com o mesmo objetivo: juntar uma boa grana pra terminar a faculdade e sair do Estado. E como você descreveu, a vida delas é exatamente essa, de baladas, ricos porcos, cocaína e infelicidade. Fico um pouco indignado de pessoas boas e que podem ter um bom futuro se entreguem à uma profissão que degrada sua imagem, seu físico, seu psicológico e seu espiritual. Elas ganham bem e não reclamam, mas ao mesmo tempo sabem que ali estão fazendo a pior coisa do mundo. Chega a ser triste.
[]'s
Musikaholic
Contagiantemente bem escrito como sempre, até me fez lembrar de umas coisas que eu jurava que já tinha esquecido.
Voltei à blogosfera depois de MUITO tempo afastado, e provavelmente não vou ficar logado tempo o bastante como sempre, mas vou tentar reservar um dia pra ler todos os textos seus que eu perdi enquanto estive fora.
Cheguei até aqui, através do blog Expresso sem açúcar, por favor! - do meu caro amigo Fábio.
Os elementos urbanos em seus textos, torna a leitura prazerosa e contagiante.
Aguardo o próximo texto...
Parabéns pelo trabalho!
Cheguei até aqui, através do blog Expresso sem açúcar, por favor! - do meu caro amigo Fábio.
Os elementos urbanos em seus textos, torna a leitura prazerosa e contagiante.
Aguardo o próximo texto...
Parabéns pelo trabalho!
pois é, me lembro no 1° ano qdo vc me contava essa história...vc sempre falava desse trampo com um certo desprezo...de vc mesmo...mas são boas histórias, de um passado que moldou vc do jeito q vc é...
beijos...
(nem comentou meu texto ainda, hein? humpft!)
Muito bom Plínio!!
Adorei sua observação sobre o assunto, da maneira humana com que tratou as dificuldades dessas meninas e dos sonhos que existem sim!!
E que bom que a fotografia teve tal envolvimento!!Conhecer pessoas, dividir experiêcias... Isso é o que mais gosto na fotografia.. e claro, para quem tem sensibilidade.
beijosss
Muito bom Plínio!!
Adorei sua observação sobre o assunto, da maneira humana com que tratou as dificuldades dessas meninas e dos sonhos que existem sim!!
E que bom que a fotografia teve tal envolvimento!!Conhecer pessoas, dividir experiêcias... Isso é o que mais gosto na fotografia.. e claro, para quem tem sensibilidade.
beijosss
Olá Plínio,
No final você coloca os arreios nos devidos lugares... Ops, quero dizer, as personagens de papéis trocados com acerto, porém, que lhes assentam melhor!
Sua arte de escrever sobre o submundo me encanta.
Abraços.
Sem palavras para seu texto. Tanta experiência que tu derramou em cada linha...
E é verdade, e o futuro? O que será dessas mulheres? Viverão no medo de um passado descoberto? Uma frase é certa: uma vez na internet, para sempre na internet.
É preciso pensar bem antes de fazer qualquer coisa.
Mentira, ninguem pensa quando precisa.
É apenas necessário enfrentar o medo posterior.
Olá! Achei seu blog pelo HenriqueM. Adorei o conto. Acho que vou fuxicar os textos anteriores. Posso? rsrs
Nice it is! Falando em Nabokov, há um vídeo dele em um programa de TV canadense da década de 50 discutindo sobre esse mesmo tema da narrativa... se bobear até no youtube você acha isso.
Abraço!
Hey
=D
obrigada por comentar. Bom, Anthrax é mais velho que eu, então tudo que é mais velho que eu considero..é...velho. muitas pessoas ouvem o som da moda e eu tô lá nostalgiando ouvindo legião. me chama de estranha o0
até mais,
valew
Então, tudo depende da nossa imaginação? E a antropologia... se fez presente :D
mto show mano parabens blog rox
Nossa muito bom esse texto.Muito incrivel como mostra a realidade das coisas...atras das cortinas ha um mundo nojento, e fazemos parte desse sistema...Muito bom o texto otimas palavras...
Valeu
Nossa muito bom esse texto.Muito incrivel como mostra a realidade das coisas...atras das cortinas ha um mundo nojento, e fazemos parte desse sistema...Muito bom o texto otimas palavras...
Valeu
Cara, eu nem sei o que dizer, mas tenho que comentar algo. Esse teu texto é intenso, possui um vigor estilístico, é astuto. É como um grito.
é, eu nem sei o que dizer, além de que voltarei aqui com certeza, porei nos "favoritos".
Ahh Plíniooo
Não tem o que comentar!!!!
Fantástico como sempre!!!Adoro suas idéias e contos!!!!e divirto muito também!!!
Bjinhos
Boa, "grande" Plínio!
É sempre bom voltar aqui e ler algo bom.
Seus textos são uma inspiração para quem gosta de ler e criar. Parabéns!
Abraço.
Antes de ir a merda ( bom incentivo nos comentários...rs) Vim me juntar aos outros, e dizer o mesmo Parabéns.
Seu texto tem vida, faz c/ que nos sentimos algum desses personagens, até mesmo os que estão ali inseridos apenas no plano de que serão os próximos.
Verdadeiro e simples, qualidades admiráveis.
Obrigada por alimentar meu lado voyer e me tirar dele tb.
texto delícia de ler.
e olha que quase eu nunca leio até o fim...
volto aqui mais tarde.
Eu precisava desse blog no ar!!!!
Finalmente Nosso amigo beberrão(Hic!)Cumpriu sua promessa....
:)abraços caraaaa
PS:Queremos novidades!
Eu precisava desse blog no ar!!!!
Finalmente Nosso amigo beberrão(Hic!)Cumpriu sua promessa....
:)abraços caraaaa
PS:Queremos novidades!
fazia MUITO tempo que eu não passava por aqui.. e não é motivo de surpresa: os textos continuam muito bons!
Parabéns pelo blog, mais uma vez..
Deu até vontadinha de escrever!
Beeeeeeijos.
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