sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Noctâmbulos





Pesam as pálpebras, cortinas cobrem retinas. Observo a Lua, leve no céu. Leva-me leve a Lua aos céus baixos em mim, fobias, fantasias, fantasmas dançando nus o tango do delírio.


Na janela jaz a rua em paz, sem pés que passem apressados, carros rodando sem rostos atrás dos vidros escuros, obscuros robôs correndo aos matadouros pelo pão nosso de cada dia que o diabo amassa, cospe e fode. São massa, insana massa. Só, a avenida semeia lâmpadas de mercúrio, brotam vermelhos céus – de fora e de dentro. Deep red redemption when the city sleeps.

Pesam os relógios, quartzo marca-passo musicado, desesperada sinfonia monossilábica escorre a pele, os cabelos, a força, os cânceres, as saudades.

TIC, TIC, TIC, TIC, TIC, TIC. TUM, TUM, TUM, TUM, TUM, TUM

Cardíacos acordes acordam pensamentos mortos. Anjos tortos, demônios narcolépticos, noturnos, alma fotofóbica com óculos de insônia. O resto é casca, zumbi de barba feita e sapatos polidos. Sob o sol, paletó, cartão de ponto, jornal, café, cigarros, bom dia, boa tarde, bom garoto, pega um biscoito, um graveto, um holerite, uma esposa, uma televisão.

A insônia ri no espelho. Do espelho. O rosto atrás do rosto, da máscara, ri o sorriso nicotinado do sorriso colgate. Olheiras fundas sorriem sinceros para a Lua leve que me leva, enfim, pra longe de mim. Sorrir antes que o dia nasça e tombe novamente na tumba.

TUM, TUM, TUM, TUM, TUM, TUM...

12 comentários:

Junk Punky disse...

Como sempre, deliciosa prosa.
Consigo montar os cenários, sentr as emoções, entender.

uma pergunta, seria vc o insône?

Fraturas Expostas disse...

o mais sonoro dos seus textos...primoroso!

escreveu tudo o que eu queria ler...como se de mim saísse tudo isso, me dissesse tudo isso, e assim eu pudesse entender, acreditar, no que eu não disse, mas sinto.

The Ideas of a Vintage Doll disse...

Eu sinto a insonia em mim...
Adoro tudo que escreve!

Wagner Ribeiro disse...

Olá, meu caro

Faz tempo que não passo por aqui. Fiquei um pouco chocado com a mudança. Chocado com a beleza que encontrei nos seus textos.

Parabéns, meu amigo.

Sucesso.

Marcelo Fabri disse...

Insônia é o tema da vez dos blogues. Deveria ser tema lá do "Pândega". Pelo menos já teriam uns 4 autores com o texto pronto. Eu, você, a Karen, o Casimiro.
Mas no seu texto usou figuras de linguagem que nós 3 não usamos: aliteração, assonânsia e paronomásia.
Isto deixa o texto muito bonito.
Abração
Marcelo

pensador disse...

mó viagem! se vc um dia publicar um livro, eu garanto que compro.

abraços libertários

HenriqueM disse...

Consegui absorver mais sensações com o último parágrafo do que com todo o restante do texto.

E gostei do sentimento visual causado pelo efeito de escrever as batidas em tamanhos diferentes, como se fosse um ecoar, ou um afastamento.

Mari Bortz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mari Bortz disse...

É isso mesmo. Que seja, vida brincando com a gente, tanto melhor.

Espirais, expirais...

que insônia mais bonita, cara!

Cinzeiros que agüentem, têm feito umas lindas luas.

Beijo.

pensador made in vaso disse...

mais uma leitura, mais u sentimento novo.

abraços

o'Ricci disse...

Processe-me, eu sou preguiçoso!

E não tenho mais a vista de Ipanema... Agora eu sou forçado a olhar pra Niterói, do outro lado da poça. O que significa menos cerveja e nenhum topless. Goddamn it!

Vivi Peron disse...

Insônia, acho que todo mundo já teve ou terá um dia, ou constantemente rsrs. Gostei da maneira que abordou o tema, gosto do seu rico vocabulário, da maneira que escreve.
Bjs!!!